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20/12/2018 - Amigos e admiradores rememoram trajetória de Vicente Amato Neto

“Trata-se de um ícone da Medicina Tropical e da Infectologia brasileira, por uma trajetória não só pioneira como profícua, que não parou de produzir, de encorajar e capacitar as novas gerações para fazerem o mesmo.”

É assim que o diretor da Divisão de Clínica de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP, Aluísio Segurado, define Vicente Amato Neto, falecido em 11 de dezembro, aos 91, em São Paulo. Ele foi o primeiro médico residente em Infectologia no País e era professor emérito da FMUSP.

Segurado relata que estava no primeiro ano de faculdade quando assistiu uma aula de Amato Neto por ocasião do concurso público para professor de moléstias infecciosas. “Tinha o mesmo espírito em todas as salas de aula: o de um didata, com muita proximidade com os alunos, tendo sido querido por diversas gerações de estudantes e futuros mestres, doutores e lideranças de centros assistenciais e de pesquisa no Brasil inteiro.”

Amato Neto também foi superintendente do Hospital das Clínicas da FMUSP, secretário de Saúde do Estado de São Paulo, diretor do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo e um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

Sua profícua produção intelectual na área tem como destaques a caracterização da forma aguda e da transmissão transfusional da Doença de Chagas, a caracterização clínica da toxoplasmose adquirida, aspectos diagnósticos e terapêuticos das enteroparasitoses e as imunizações. Foi autor de 348 artigos científicos, 22 cartas e seis livros didáticos.

Homenagens

Segundo Ester Cerdeira Sabino, diretoria do Instituto de Medicina Tropical, ele passou a vida buscando pesquisar e ensinar na sua área de atuação. “Trabalhamos na mesma área, a doença de chagas. Tive aula com ele e digo que foi uma pessoa muito importante para manter vivo o tema das doenças tropicais.”

“Foi um grande pesquisador, com centenas e centenas de artigos publicados, muitos livros. Também chefiou o departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da FMUSP por muitos anos – do qual também faz parte um de seus filhos, Valdir. Alguém muito respeitado, uma figura admirada por todos”, completa Ester.

Segundo Esper Kallas, também professor na Divisão de Clínica de Moléstias Infecciosas da FMUSP, Amato Neto foi uma das pessoas que mais batalhou pela Infectologia no Brasil, fortalecendo muito a especialidade e levando diversas pessoas, com muito talento, para pesquisa e atuação nesta área.

“Ele chefiou vários serviços de Infectologia que, sob seu comendo, tiveram destaque nacional. Grande parte das pessoas com quem já trabalhei foram influenciadas fortemente pelo professor Amato, inclusive o filho dele, Valdir Amato Neto, também infectologista, com quem tenho o prazer de interagir dentro da especialidade e da FMUSP, e é um grande amigo meu”, relata Kallas.

Em sua sala no Instituto de Medicina Tropical, como conta Reinaldo José Lopes na Folha de S. Paulo, abrigava um batalhão dos que apelidava jocosamente de “amigos”: centenas de bichos-barbeiros, os insetos que são vetores do micro-organismo Trypanosoma cruzi, causador do mal de Chagas.

 

Vida

Amato Neto nasceu na capital paulista em 24 de julho de 1927, numa família de imigrantes italianos que morava no centro da cidade. Curiosamente, no entanto, a principal presença de imigrantes nas vizinhanças da casa de seus pais, o alfaiate Arturo e a dona de casa Aída, era a de famílias de japoneses, que então estavam chegando a São Paulo em grande número.

Era apaixonado por futebol, e em especial pelo Palmeiras, uma herança do pai, o qual, segundo o infectologista declarou à Folha em entrevista de 2003, “só pensava no seu Palestra Itália”. Amato Neto capitaneou, por exemplo, a Confraria Alviverde, grupo de médicos palmeirenses. Quando estava na faculdade, logo entrou no “Peito Nu”, time de universitários que, como o nome deixa claro, jogavam sem camisa. E, mesmo quando já era professor emérito da USP, fazia questão de visitar a Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz, órgão esportivo da faculdade, e ajudava a organizar partidas.

Ao ingressar na Faculdade de Medicina da USP, em 1946, tornou-se o primeiro membro da família a cursar uma universidade. Depois de se formar, em 1951, participou da primeira turma de residência médica do país, junto com 28 outros formandos. A experiência no Hospital das Clínicas de São Paulo logo fez com que Amato Neto se interessasse pela área de doenças infecciosas e parasitárias.

No trabalho como médico e pesquisador, o infectologista centrou seus esforços em técnicas para investigar os mecanismos básicos dessas doenças e usar tal conhecimento para a prevenção. No caso do mal de Chagas, por exemplo, Amato Neto desenvolveu técnicas para flagrar a presença do Trypanosoma cruzi em sangue destinado a transfusões e evitar a transmissão da doença por essa via. Também se dedicou a entender o processo de infecção pelo parasita da toxoplasmose, o micróbio Toxoplasma gondii.

 

Durante sua gestão como superintendente no Hospital das Clínicas, de 1987 a 1992, chegou a ser sondado para assumir o Ministério da Saúde e recusou. No entanto acabaria aceitando chefiar a Secretaria da Saúde de São Paulo, ficando menos de um ano no cargo. Mais tarde, afirmou que deixou a secretaria por protestar contra irregularidades no órgão. Além dos livros voltados para o público acadêmico, publicou dois volumes autobiográficos, com o título de “Memórias Seletivas”.

 

Com informações da Folha de S.Paulo e da Agência FAPESP