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24/09/2019 - APM sedia II Encontro Brasileiro de Slow Medicine
“É muito importante que esse movimento se realize aqui, na sede da Associação Paulista de Medicina. Fica claro que não se trata de uma especialidade, é uma filosofia com o resgate dos princípios socráticos. Temos de estudar muito, mapear as evidências, ver o que há de efetividade, eficácia, eficiência e segurança e, principalmente, não ter pressa. Uma segunda opinião também é uma Medicina sem pressa.” Com essas palavras, o diretor Científico da APM, Álvaro Nagib Atallah, fez a abertura do II Encontro de Slow Medicine, ocorrido no último sábado (21).
O coordenador Científico do evento, José Carlos Campos Velho, agradeceu o apoio da Casa, inclusive pelos dois outros encontros realizados anteriormente, brasileiro em 2017 e paulista no ano passado. Nesta edição, a reunião teve como propósito resgatar a relação humana entre médico e paciente, muitas vezes perdida em detrimento da valorização exacerbada do uso tecnológico.
“Em algumas situações, essa utilização excessiva pode ser lesiva ao paciente. Então, esse encontro busca trazer um momento de reflexão e pensar a respeito de nós mesmos, enquanto profissionais de Saúde na nossa prática diária, de como podemos oferecer o que há de positivo a ele. Embora as pessoas acreditem tratar-se de uma prática lenta, implica muito mais nas nossas tomadas e compartilhamentos de decisões e informações, levando em conta os valores, as expectativas, os propósitos, o momento vital que o paciente está vivendo”, explica.
Em seguida, na aula “Livros, Literatura e Medicina Sem Pressa”, Velho falou da importância do resgate da conexão entre a leitura e a escrita, essencial na prática da Slow Medicine. E sugeriu alguns autores consagrados da área, como Bernard Lown, Katy Butler, Victoria Sweet, Marco Bobbio, Robert Whitaker, Allen Francês e Kurt Kloetzel.
É nesse sentido que entra a empatia, como defende a clínica geral e geriatra Jaqueline Doring Rodrigues. “A empatia, como costumamos pensar, não é se colocar no lugar do outro porque é impossível; na verdade é tentar ver as coisas com o olhar daquela pessoa, entrar no cenário dela e compreender o que está acontecendo. Então, não devemos trata-la como gostaríamos de ser tratados, devemos trata-la como ela gostaria que nós a tratássemos”, esclarece.
Ela informa que nas últimas décadas, cientistas mostraram que os seres humanos são essencialmente empáticos. “Isso significa que somos dotados fisicamente da capacidade de sentir. Esse cuidado pode reduzir a dor, a depressão, a ansiedade, o esgotamento profissional e aumentar a satisfação dos pacientes, a sensação de bem-estar e melhorar a adesão ao tratamento medicamentoso.”
O cardiologista italiano Marco Bobbio participou ativamente da construção do conceito de Slow Medicine no Brasil, cujo lançamento oficial ocorreu em uma palestra realizada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em 2016. E neste evento na APM, ele ministrou a aula “Slow Medicine, um Movimento Internacional”.
“A complexidade da humanidade nos permite tratar cada paciente de uma forma diferente. Medicina sem Pressa é conhecer e usar orientações, informações sobre os sintomas registrados no histórico do paciente para poder ajudá-lo”, reforça. Para explicar o significado do movimento, ele conta histórias cotidianas entre médicos e pacientes.
Ir(racionalidade), incerteza e educação médica
“A ideia da certeza é uma ideia platônica, que muitas vezes nos enviesa com pensamento racional. No entanto, reconhecer a incerteza está no cerne da irracionalidade médica, isso nos faz avançar e procurar o próximo passo e ter certeza das probabilidades”, justica o professor e coordenador do Centro de Medicina Baseado em Evidências da Bahiana – Escola de Medicina e Saúde Pública, Luis Cláudio Correia.
Em sua palestra “A ir(racionalidade) do pensamento médico: Medicina baseada em incerteza”, ele fez uma crítica de que vivemos à procura da certeza em dados diagnósticos platônicos, porque queremos ter certeza do tratamento certo, da Medicina certa, com o paciente certo; é a fantasia da Medicina de precisão.
Por isso, defende que o trabalho médico deve ser permeado pelo ceticismo clínico - porque a certeza promove insegurança, pela probabilidade e pela sustentabilidade. “Não existe decisão certa em Medicina, o que existe é a melhor decisão, o que tem a melhor probabilidade. Incerteza promove segurança; certeza, insegurança.”
Na outra ponta, a oncologista clínica Ana Lucia Coradazzi, em “Slow Medicine e Educação em Saúde”, procurou entender como historicamente ocorreu a transformação da Medicina com muita proximidade em uma com muito conhecimento e pouca proximidade. Nos primórdios, de acordo com o levantamento da pesquisadora, o cuidado era instintivo e básico. Em torno de 500 a.C., começa o processo de observar a situação/racionalidade da discussão. Com o cristianismo, em 330 a.C, surgem espaços para o repouso do corpo humano, futuros hospitais; Entre 900-1000 d.C., surgem as primeiras escolas médicas.
“Em 1518 d.C., a Medicina começa a migrar para as universidades. A partir daí, começa a haver um afastamento entre médicos e doentes. São instituições também que determinam que vão estudá-la, como será avaliado e o tempo de formação”, historiciza.
A partir do século 19, a estruturação da educação médica passa a ser pautada no uso tecnológico. “Isso não é ruim, pois aumentou as taxas de cura e de tempo de vida. E por que temos a sensação que nem todos os pacientes sentem esse avanço na Medicina, aliás, muitos sentem-se desamparados? Porque perdemos a individualização, a capacidade de contextualização e o senso de limite”, explica.
Nesse sentido, ela defende que a Medicina Sem Pressa não é um movimento novo. “É uma forma mais sensata e eficaz de exercermos nossa prática contemporânea, com todas as informações que temos. Não é romantizar o exercício médico, ela pode ser fast, pode usar tecnologia de ponta, até ser feita a distância. Mas é importante também recuperar ferramentas ultrapassadas ou esquecidas que em alguns contextos são mais benéficas que a tecnologia.”
Atenção primária e emergência
O médico atuante na Atenção Primária à Saúde, preceptor do internato da Faculdade de Medicina de Petrópolis (FMP/Fase), Regis Vieira, defende que a integralidade no serviço e profissionais qualificados para a atenção primária são fundamentais. “A comunidade precisa ser articulada para cobrar; somos nós a comunidade, a massa crítica desse processo. Não vamos esperar que essa articulação parta apenas dos conselhos gestores das unidades básicas de saúde.”
Por fim, o clínico cirúrgico Dario Biroli, na palestra “Slow Medicine em Emergência?”, compara o atendimento de pronto-socorro a um shopping center. “Com médicos jovens e pouco experientes, inseguros e estressados. Todos os anos estão sendo formados centenas de médicos que não entendem do exercício profissional. Quando o paciente entra, eles fazem um diagnóstico presuntivo, à base de uma pseudoavaliação.”
Para ele, a atuação médica deve ser norteada sob alguns princípios básicos assistenciais. São eles: responsabilidade profissional; respeito, compreensão e auxílio ao paciente; não uso da profissão como meio de promoção e lucro; avaliação integral e cuidadosa do assistido; diagnóstico crítico; vínculo entre colegas; e ouvir uma segunda opinião ou encaminhar o paciente em caso de dúvidas. A especialista em Direito da Medicina Lívia Abigail Callegari encerrou o evento.
Fotos: BBustos Fotografia
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