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01/08/2017 - APM sedia II Encontro de Pacientes com DIIs
Repetindo o sucesso do ano passado, o Departamento Científico de Gastroenterologia da Associação Paulista de Medicina realizou o II Encontro de Pacientes com Doenças Inflamatórias Intestinais, em 29 de julho. Mais de 50 pessoas, entre pacientes, acompanhantes e palestrantes, participaram do evento que objetivou esclarecer os sintomas mais comuns das DIIs e a importância de aderir corretamente ao tratamento.
“Tenho o hábito de fazer encontros de pacientes uma vez por mês no meu consultório para conscientizá-los e motivá-los a aderirem ao tratamento. Resolvi também trazer esse projeto para a APM, primeiro porque sou fã desta casa; segundo, a Associação tem uma força muito grande perante a sociedade. Com isso, trouxe para cá não só meus pacientes, como de outras instituições”, explica a coordenadora do evento, Rosângela Maria Porto de Melo, presidente do Departamento Científico de Gastroenterologia da APM.
De acordo com ela, além de ampliar o conhecimento dos pacientes e familiares sobre as doenças inflamatórias intestinais, estabelece uma aproximação entre especialista e paciente e há uma troca de experiência significativa entre as pessoas que têm DIIs. “Damos a eles as ferramentas para que entendam a importância de pedirmos uma colonoscopia, por exemplo. E também convidamos os familiares para compreender porque, por determinados momentos, pessoas com os sintomas se limitam ao convívio social; entendendo a doença, os familiares passam a colaborar mais e motivam o paciente.”
Avanços e desafios
O coloproctologista Lucas Boarini, ao explanar sobre os “Aspectos clínicos da doença de crohn”, falou que a patologia ainda é pouco conhecida entre os médicos. “Por isso, é importante difundir o conhecimento adquirido ao longo dos últimos anos pela sociedade de gastroentorologia e coloproctologia e transmitir um pouco para os pacientes e outros profissionais da Saúde”, reforça.
A doença de crohn foi descoberta em 1932, por Burrill Bernard Crohn, médico norte-americano, ao descrever casos de inflamação intestinal de ileíte regional. Por conta da enfermidade, as células imunológicas se confundem e passam a agredir as células intestinais que deveriam protegê-las.
Segundo Boarini, a doença de crohn e as demais inflamações intestinais vêm apresentando um gradual crescimento, sobretudo nos últimos 40 anos. “Isso se deve muito aos fatores ambientais pelos quais as pessoas estão sujeitas. Há pacientes que já nascem com a predisposição genética, mas dependendo dos fatores da vida que são expostos, podem desenvolver a doença inflamatória intestinal. Os principais fatores que ajudam nesse desenvolvimento são o cigarro, má alimentação, alguns medicamentos como anti-inflamatórios e antibióticos, o estresse da vida atual e a poluição”, explica.
Entretanto, segundo o especialista, o fator genético é responsável por 16% dos casos de doença de crohn. Os sintomas gerais das DIIs são febre, acentuada perda de peso, anemia, desnutrição, manifestações extraintestinais; em crianças, crescimento tardio e alteração psicológica. “Por isso, é fundamental esclarecer aos pacientes as diversas manifestações das inflamações intestinais para que façam o melhor tratamento possível.”
Para a coordenadora do evento, Rosângela Porto, que ministrou a aula “Aspectos clínicos da colite ulcerativa inespecífica", é necessário hoje manter um tratamento com diagnóstico preciso para estabilizar a doença, já que não tem cura. “Há novas medicações biológicas e imunobiológicas. No Brasil, temos duas e mais outra classe de medicamentos, mas que também têm suas indicações pontualmente limitadas àqueles casos de moderado a grave. Entretanto, o tratamento oferecido no Brasil, principalmente em grandes centros urbanos, não se difere daqueles usados fora do País, com toda infraestrutura e diagnóstico preciso. Para isso, precisamos que o paciente também colabore com o tratamento”, acrescenta.
Sintomas extraintestinais
A reumatologista Ivone Meinão, presidente da Associação Brasileira de Mulheres Médicas - Seção São Paulo (ABMM-SP), esclareceu aos presentes os outros segmentos afetados no organismo em casos de doenças crônicas como as DIIs.
“As doenças inflamatórias intestinas podem agredir a pele e os olhos, mas o acometimento das articulações ou até a inflamação na coluna são mais frequentes. No entanto, essas manifestações extraintestinais dificilmente levam a deformidades ou erosões articulares ósseas. Quando ataca a coluna, pode ser um pouco mais limitante.”
Os pacientes ainda tiveram palestras sobre manifestações dermatológicas, sob orientação das especialistas Tatiana VIllas Boas Gabbi e Maíra Morales; perspectivas atuais no tratamento das DII, com Isaac Altikes; e a importância do acompanhamento nutricional, com Rebeca Isaac; e psicológico, com Maria Aparecida Carneiro de Miran.
Experiências
O técnico de enfermagem Milton Reis de Almeida, de 51 anos, descobriu há nove que tem a síndrome de crohn. “Comecei a ter problemas intestinais. No início, achava que fosse uma diarreia, mas foi piorando. Em minhas buscas, encontrei o consultório da Dra. Rosângela Porto, lá obtive todas as informações e fiz os exames necessários. Foi aí que fiquei sabendo da doença. Hoje tenho uma alimentação regrada e tomo os medicamentos de controle. Não digo que seja fácil, mas você se adapta e acaba tendo uma vida normal.”
Edna Aparecida Pereira da Conceição, aposentada de 48 anos, convive com a doença há 26. “Estava com 22 anos, justo no período que queria fazer de tudo. Trabalhava à noite, era véspera de carnaval, saí com o pessoal do trabalho e fui para uma baladinha. Lá, comemos um lanche de creme de milho. No dia seguinte, amanheci com uma intensa diarreia, achando que o creme de milho tivesse feito mal. Alguns dias depois, a diarreia continuou e fui parar no pronto-socorro; disseram que era intoxicação alimentar, e me indicaram para o gastroentorologista. Após sete meses de sintomas, fui encaminhada para um proctologista, que me diagnosticou com crohn.”
Durante esse intervalo de tempo, Edna perdeu quase 20 quilos e, desde quando descobriu a doença, já fez 15 cirurgias. “Conviver com quem passa pela mesma situação nos fortalece, a gente acaba absorvendo melhor e consegue levar a vida com um pouco mais de leveza. Eu recomendo que as pessoas procurem ter convivência com pacientes que passam pela mesma situação porque trocar experiência é sempre muito bom. Inclusive para a gente mesmo se ouvir e se questionar – ‘olha quanta coisa já passei, quanta coisa já superei’, então é bem gratificante.”
Maria Rita da Silva, 47, nutricionista, começou a apresentar os sintomas da doença quando tinha 10 anos. “Comecei com diarreia, dores abdominais e perda de peso. Aí fui encaminhada ao médico para fazer uma série de exames, em torno de três meses fiz a colonoscopia, que acusou infecção intestinal. Tratei a adolescência inteira, tomando medicações que haviam na época, com alguns períodos de internações e muitas transfusões de sangue, porque tinha muita hemorragia.”
Nos anos 1990, ela fez a primeira cirurgia. Nestes 37 anos de síndrome, já fez uma média de 12 cirurgias de pequeno e médio porte. “Desde 2013, tenho uma ostomia definitiva que não aceitava a princípio, mas quando passei a conviver com outros pacientes, vendo a rotina deles e que podiam ter uma vida normal, me senti preparada para o processo cirúrgico.”
Já Rodrigo Pereira de Guimarães, coordenador de controladoria, 30 anos, foi diagnosticado com a doença de crohn há dois anos. “Comecei com fortes dores abdominais aos 26 anos, desconfiei porque meu irmão tem crohn desde os 18 anos (hoje com 32). Fiz uma cirurgia às pressas e acabei tirando 60 centímetros do intestino, mas não tinha sido diagnosticado com a doença. Com 28 anos, tive novamente muitos dores e diarreia, acompanhada de febre, quando foi descrita a doença. Hoje, tenho uma vida norma, faço o tratamento correto, viajo, trabalho e toco violão, assim como o meu irmão que tem a doença extremamente controlada.”
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Fotos: Osmar Bustos
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