DEU NA MÍDIA
25/06/2017 - 'Como aprendi a viver com múltiplas personalidades'
Um trauma grave pode causar um tipo único de ruptura mental – transtorno de identidade dissociativa (TDI), que cria múltiplas personalidades; como é viver com essa condição?
Até os 40 anos, Melanie Goodwin não tinha qualquer memória de sua vida antes dos 16 anos. Então, uma tragédia familiar desencadeou uma mudança psicológica gigantesca.
De repente, ela descobriu outras identidades dentro de si e as barreiras entre elas começaram a ceder. As diferentes identidades pertenciam a ela, sentia Melanie, mas "ela" em diferentes idades, dos três aos 16 anos até a fase adulta.
Essas idades não eram aleatórias. Entre as diferentes e assustadoras vozes chegaram à sua consciência memórias de abuso infantil, sendo que o primeiro aconteceu quando ela tinha três anos e o último quando ela tinha 16. "Eu não tenho provas", diz ela. "Eu tenho que aceitar o que eu acredito que aconteceu, a minha realidade."
Melanie tem o que se chamava de "transtorno de múltiplas personalidades", que agora é mais conhecido como transtorno dissociativo de identidade (TDI). A mudança no nome reflete um entendimento de que há algo além de mudanças na personalidade. Memórias, comportamentos, atitudes, percepção de idade - tudo pode se alternar.
"Nós" - ela geralmente se refere a si mesma como "nós" - "tínhamos várias partes adultas". "No desenvolvimento deveria haver uma transferência, mas como não crescemos naturalmente, adaptamos a nós mesmas. No fim, havia nove partes adultas diferentes, cada uma administrando um estágio de nossa vida adulta sem abusos."
Viver com TDI pode ser um inferno, diz ela. É uma quebra em um aspecto da existência cotidiana que a maioria de nós subestima - nosso senso de ego autônomo. Para Melanie, a consciência abrupta de que existiam várias identidades dentro dela foi contundente. Como ela poderia acomodar todas elas?
Dividida em partes
Melanie fala de um sofá em uma sala de consulta do Centro Pottergate para Dissociação e Trauma em Norwich, no Reino Unido. O centro é administrado por Remy Aquarone, um psicoterapeuta analítico e ex-diretor da Sociedade Internacional do Estudo de Trauma e Dissociação.
Em 30 anos de carreira, Aquarone trabalhou com centenas de pessoas com transtorno dissociativo. Na maioria dos casos, diz ele, há um histórico de abuso infantil, muitas vezes iniciado antes dos cinco anos de idade.
Em uma tentativa de lidar com as experiências traumáticas, segundo a teoria da área, a criança "se dissocia", divide-se em partes. Uma parte suporta o abuso e fica com os terríveis impactos emocionais e físicos, outra parte continua sua existência.
Ou pode ser que uma parte lide com o abuso enquanto outra consiga levar seu corpo de volta ao seu quarto em segurança. Se há abusadores ou cenários diferentes envolvidos, muitas partes diferentes podem surgir.
É a dissociação que permite que a criança siga em frente. "É o sistema mais avançado de adaptação. Ela está usando sua cognição inconsciente para adaptar sua maneira de pensar e seu comportamento para conseguir se manter segura", diz Aquarone.
"Se você está em uma situação completamente impossível, você se dissocia para se manter vivo. O trauma pode congelar você no tempo. E porque o trauma continua com o passar dos anos, há vários pequenos congelamentos acontecendo por toda parte", diz Melanie.
Nem todo mundo que passa por abuso infantil - ou qualquer outro trauma de grande magnitude - desenvolve TDI. Com base nesse trabalho, Aquarone diz que há outro fator crítico envolvido: a ausência de uma ligação afetiva normal e saudável com um adulto.
No campo da psicologia de desenvolvimento, "ligação" tem um significado específico: é um laço formado entre uma criança e um cuidador que apoia e cuida dessa criança emocionalmente e na prática enquanto também ajuda a criança a aprender como administrar suas reações.
Sem esse laço - impedido por negligência, abuso ou até morte - uma criança passando por um trauma precisa se defender sozinha.
Ao refletir sobre pessoas com TDI como um todo, Melanie diz que "o que não tivemos quando criança é um pai ou mãe metaforicamente segurando você e o ajudando a aprender como lidar consigo mesmo".
Crianças que desenvolvem laços seguros conseguem lidar melhor com a vida de maneira geral, diz Wendy Johnson, professora de Psicologia da Universidade de Edimburgo.
"Em primeiro lugar, elas são melhores em lidar com outros de uma forma bem-sucedida. Suas relações tendem a ser mais tranquilas. Elas tendem a ganhar mais dinheiro, ser mais apreciadas e reconhecidas pelos outros e se meter menos em brigas. Elas também tendem a experienciar a vida com mais tranquilidade, então é mais agradável para elas."
Isso não significa que nossas personalidades são determinadas para sempre nos primeiros anos de vida. Um ambiente relativamente estável em termos de relacionamento e trabalho ajuda a manter uma personalidade relativamente estável.
"Eu acho que na verdade nossos ambientes tendem a ter muita estabilidade, o que contribui à consistência que tendemos a demonstrar", diz Johnson. Mas se essas influências externas mudam, nós também mudamos.
Ter filhos, perder um emprego - esses tipos de mudanças grandes na vida podem provocar comportamentos que nos surpreendem, assim como mudanças em traços como nível de retidão e extroversão. Não é surpresa que ser um jovem adulto geralmente envolve um grande questionamento de identidade, diz Johnson, já que isso frequentemente ocorre quando muitas coisas estão em fluxo - lar, arredores, amizades.
Sem um senso unificado de si que a estabilidade e as ligações afetivas trazem, identidades dissociadas podem dar a impressão de que a personalidade de alguém se altera dramaticamente.
Melanie tem uma parte anoréxica e uma parte que tentou suicídio duas vezes porque a dor das barreiras que pareciam cair lhe pareciam insuportáveis. Sua parte de três anos de idade se assusta facilmente com coisas que a fazem lembrar de seus traumas passados, como um cheiro ou o jeito de andar de um homem, e nessas situações ela congela ou até mesmo se esconde. Por outro lado, a parte de 16 anos pode até flertar.
Faz sentido que Melanie se comporte de maneira diferente dependendo de quem estiver dirigindo sua mente. Ela não age como seu ego de três anos ou nem sequer se lembra de como era ter três anos. Ela é essa menina de três anos - até que outra identidade tome a direção.
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Por BBC Brasil
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