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26/02/2018 - Diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP fala sobre a febre amarela na APM
Ester Cerdeira Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP, ministrou palestra sobre a febre amarela na última reunião de diretoria da Associação Paulista de Medicina, em 23 de fevereiro. “A febre amarela e seus vetores vieram da África, com os escravos, e conseguiram permanecer na mata até hoje, em seu ciclo silvestre. Nele, os macacos são os principais hospedeiros e amplificadores do vírus e o homem participa como hospedeiro acidental”, ressaltou.
Já na epidemia conhecida no início do século XX, de ciclo urbano, o homem era o único hospedeiro com importância epidemiológica. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo compilados por Adriano Pinter, doutor em Epidemiologia Experimental Aplicada às Zoonoses, a última epidemia de febre amarela com ciclo de transmissão urbana no Brasil ocorreu em 1942 e foi contida com o controle vetorial estabelecido por Oswaldo Cruz e Emílio Ribas, associado à vacinação.
“O desenvolvimento da vacina contra a febre amarela utilizada até hoje, com vírus vivos atenuados, se deu entre 1927 e 1937, por Max Theiller, que conquistou um Prêmio Nobel de Medicina em 1951”, relembrou Ester. A indicação da vacina, para as regiões Norte e Centro-Oeste até 1997, foi se expandindo para as áreas de transição ao longo dos anos e, em 2010, só não estava no calendário de imunização para a Região Nordeste e para as áreas mais próximas do litoral no restante do País, incluindo a região metropolitana de São Paulo.
Ainda de acordo com a diretora do IMT/USP, um estudo definiu, a partir do mapa do aparecimento de macacos mortos, que os mosquitos infectados se locomovem 2,5 km por dia na mata. A cepa de MG que chegou a SP, por exemplo, foi sequenciada em Rondônia. A partir daí, a Secretaria estadual de Saúde estabeleceu a estratégia de vacinar toda a população, de forma escalonada, priorizando as áreas de risco inicialmente.
Fracionamento e reações à vacina
"O estudo da forma fracionada começou como uma tentativa de diminuir os efeitos colaterais da vacina, o que não ocorreu, mas ficou constatado que ela mantém a imunogenicidade", reforçou Ester aos diretores da APM - a Secretaria de Saúde estima um caso de febre amarela vacinal, em sua forma viscerotrópica, a cada milhão de doses aplicadas, já outros órgãos acreditam em um caso a cada 400 mil.
“A decisão de não ter vacinado toda a população antes foi justamente por conta dos efeitos colaterais. Quando você não tinha caso nenhum de febre amarela, ficava bastante difícil indicar a imunização para todos”, completou a especialista. Além disso, a vacina contra a febre amarela tem eficácia de 95%, então das 4 milhões de pessoas vacinadas até agora, 200 mil não respondem a ela e podem contrair a doença. E ainda não há um teste para saber quem está imunizado ou não, como no caso da Hepatite B, por exemplo.
Sobre a determinação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que só é preciso tomar a vacina uma vez na vida, Ester explica que há muita gente que não concorda, especialmente no Brasil. “Eu particularmente acho que são necessárias ao menos duas doses, mas seguimos a recomendação do órgão”.
Por fim, sobre a possibilidade de termos uma epidemia urbana de febre amarela, a diretora do IMT/USP afirmou que é possível, mas não tão fácil, já que os atuais Aedes aegypti que circulam no Brasil vieram da Ásia, onde não existe febre amarela, ao contrário dos que foram erradicados no passado (em 1953 e em 1973), que eram provenientes da África. “De qualquer maneira, nós médicos, e as autoridades de Saúde, precisam fazer um esforço em conscientizar a população da importância da vacina. Acredito para o futuro que o vírus vá se manter de alguma maneira na forma silvestre, como na Amazônia, e a vacina fará parte do calendário de imunização em todo o Brasil.”
Situação epidemiológica
Conforme boletim da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, de 26 de fevereiro, desde janeiro de 2017, foram reportados 916 casos suspeitos de febre amarela no estado. 283 (30,9%) foram confirmados, com 243 casos autóctones (85,7%) e 37 importados (13,1%). Dos 243 casos autóctones, 90 evoluíram para o óbito, com letalidade de 37%.
Conforme a última atualização do Ministério da Saúde, entre 1º de julho de 2017 e 20 de fevereiro de 2018, foram notificados 1.773 casos suspeitos de febre amarela no Brasil, dos quais 685 foram descartados; 545 confirmados, com 164 óbitos; e 422 permanecem em investigação.
Fotos: BBustos Fotografia
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