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23/07/2018 - Eleição no Cremesp vira palco de guerra de fake news entre médicos
Ataques marcam pleito para conselho médico paulista, que tem orçamento de R$ 100 milhões
Em tempos de pós-verdade e de tantas fake news no mundo virtual, nem mesmo profissionais que deveriam se pautar por uma conduta ética têm conseguido fazê-lo.
Falo do processo eleitoral do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), que definirá a direção do conselho para os próximos cinco anos. Nas últimas semanas, o pleito se transformou em um palco de baixarias, agressividade, calúnias e notícias falsas.
São seis chapas, das quais três com mais chances de vitória. As eleições acontecem entre os dias 7 e 9 de agosto. O que está em jogo? O comando de uma autarquia federal com orçamento anual de cerca de R$ 100 milhões.
Cada um dos 42 conselheiros pode receber até R$ 15 mil mensais, a depender do número de atividades que desempenha dentro do conselho. O Cremesp tem quase 140 mil médicos cadastrados, o que representa quase um terço dos profissionais atuantes no país.
Ainda não está claro quais grupos estão promovendo os ataques com mensagens apócrifas divulgadas em redes sociais e mensagens de WhatsApp, tentando desqualificar uma ou outra chapa. Duas delas estão sendo alvo da maioria dos ataques.
"São mensagens covardes, anônimas, com montagens de vídeos. Algumas usam imagens antigas e fora de contexto [como uma foto da década de 80 em que um médico aparece com a estrela no PT no peito] para nos chamar de chapa de esquerda. Também há propostas falsas como sendo nossas e manifestações racistas. Uma baixaria", diz o infectologista Caio Rosenthal, que concorre pela chapa 1.
"Jamais imaginei que para a eleição de um conselho de ética eu veria tantas coisas absurdas. São vídeos com fake news, médicos atacando outros médicos de postura ilibada, ataques racistas e misóginos. É muito triste imaginar que essas pessoas estão concorrendo a uma vaga para julgar outros médicos e para defender a população", declarou a neurocirurgiã Diana Lara, da chapa 2, em post no Facebook.
Diana, única mulher negra entre 240 candidatos, foi vítima de um desses ataques. Após declarar que vai combater o preconceito racial contra médicos e contra a população negra e defender que situações de racismo sejam julgadas pelo Cremesp, um "colega" compartilhou sua proposta em um grupo fechado do Facebook.
A Rádio Nacional (que pertence à EBC, Empresa Brasil de Comunicação) teve acesso a esse grupo. No post, o médico coloca a palavra racismo entre aspas e diz que a proposta de Diana leva a luta de classes para dentro do Cremesp. Entre os médicos que comentaram o post, um classificou o debate sobre o racismo de "frescura" e uma médica chamou de "vermes" os que defendem a proposta. Diana preferiu não se manifestar sobre isso.
O psiquiatra Cleber Firmino, também negro e que sofreu ataques por ter estudado medicina em Cuba, falou à rádio sobre o racismo na área: "Quando a gente fala que a medicina é branca, isso está incorporado tanto nos pacientes quanto de outros colegas que não me veem como médico”, disse ele, da chapa 1.
Nesse ambiente tóxico de difamações e discriminações que envolvem a eleição do Cremesp, não são apenas os médicos que perdem. Também perdemos nós, pacientes, que, diante da má prática profissional, precisamos contar com profissionais éticos, justos e humanos atuando em nossa defesa.
Cláudia Colluci - Folha de S. Paulo
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