O QUE DIZ A MÍDIA
06/06/2019 - Estamos preparados para o envelhecimento da população?
"O envelhecimento da população promove uma mudança de paradigma na Saúde, e temos que desenvolver uma série de avanços e modificações no sistema para dar conta disso. Dizendo-se, de passagem, que em nenhum país do mundo essa questão foi perfeitamente resolvida e adequadamente acertada", argumenta o professor Titular de Medicina Preventiva e diretor do Centro de Estudos do Envelhecimento da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), Luiz Roberto Ramos.
Em palestra na tertúlia da Academia de Medicina de São Paulo (AMSP) - realizada no dia 10 de abril na sede da Associação Paulista de Medicina (APM) -, o especialista traçou a equação demográfica, definida pelas variáveis mortalidade e fecundidade, De acordo com as análises, o Brasil, como a maioria dos países do mundo, possuía uma situação de altas taxas de mortalidade e de fecundidade, com população jovem, até muito recentemente.
“O primeiro passo de transição começa quando há diminuição nos coeficientes de mortalidade e aumento da expectativa de vida populacional. No entanto, somen - te quando a fecundidade das mulheres diminui, há um crescimento na propor - ção de idosos”, explica. Ao comparar com os países europeus, Ramos informa que no Brasil o processo de envelhecimento tem sido mais acelerado.
“Na Europa, a transição levou em tor - no de 180 anos. No nosso país, a fertili - dade que era de 6,2 filhos por mulher em idade fértil na década de 1950, caiu para 2,1 filhos em pouco tempo. Em São Paulo, por exemplo, a fertilidade já está abaixo de 2 filhos, o que significa que a popula - ção está diminuindo. Isso ocorreu em 90 anos, metade do tempo comparando aos países mais desenvolvidos, o que dá um cenário de urgência para se pensar em políticas públicas e econômicas.”
NOVOS PARADIGMAS E DESAFIOS
É notório que, em um período histórico curto, a expectativa de vida aumentou. Em 1950, a população vivia em média até os 45 anos. Hoje, a expectativa de vida ao nascimento chega a 75 anos ou mais. O boom de idosos ocorreu, sobretudo, no final do século XX. Isso por conta de melhor qualidade de vida e mais acesso à educação e saúde.
Desta maneira, há uma mudança no perfil epidemiológico de doenças e mortes. De 1930 a 2000, 40% dos óbitos eram por doenças infecciosas e pouco mais de 10%, por males cardiovasculares. “Hoje, os 40% das mortes de outrora refletem 5% dos casos, e o que matava 10% agora mata 40%. Essa inversão das doenças infecciosas para as crônicas não transmissíveis chama-se transição epidemiológica e acompanha a transição demográfica, por conta do envelhecimento da população.”
O professor da EPM ressalta que, mesmo com as limitações decorrentes do aumento da expectativa de vida, é possível ter um envelhecimento saudável. Atividades físicas regulares, alimentação equilibrada e evitar o tabagismo são algumas práticas que devem ser levadas em consideração. “A nossa genética está preparada para nos fazer perder a função, mas não o suficiente para nos tornarmos dependentes. Serão os nossos hábitos e o ambiente em que vivemos que vão determinar essa inclinação da curva de perdas funcionais”, reitera.
Houve uma transformação paradigmática importante na realidade de saúde pública no tocante à população de risco ao longo dos anos, sobretudo entre 1950 e 1970. “As doenças infecciosas atingiam principalmente crianças, e os fatores de risco eram socioeconômicos e ambientais”, relembra Ramos.
As medidas preventivas tinham um grau de eficácia elevado, com o uso de vacinas que chegavam a eliminar algumas enfermidades do panorama de saúde brasileiro. “Os tratamentos eram simples, definitivos e baratos, com a possibilidade de se prevenir e curar as doenças, e a morte era rápida, se não desse certo”, acrescenta.
ATUAÇÃO MÉDICA
A partir dos anos 1970, houve um aumento da população de idosos. Com isso, tornaram-se importantes os fatores de risco para as doenças crônicas, não transmissíveis e não curáveis, e que são genéticos e comportamentais, portanto mais difíceis de serem trabalhados. As medidas preventivas são pouco eficazes e os tratamentos são complexos, crônicos e caros.
Ainda de acordo com o especialista, a maioria dos idosos possui alguma condição crônica, sendo que 15% têm necessidade de ajuda diariamente. A incapacidade associada com polimorbidade, polifarmácia, depressão e demência são os principais fatores de risco para mortalidade do grupo acima de 60 anos. “E pelo menos um terço dessa população vive em condições precárias.”
Para piorar, o sistema de Saúde não está estruturado para fazer frente a essa problemática. “A atenção básica ainda está voltada para a realidade materno-infantil. São poucas as unidades qualificadas com médicos que entendam de doenças crônicas e uma equipe multidisciplinar que ajude esses profissionais. Como na maioria não existe, o tratamento fica incompleto e as pessoas recorrem aos hospitais, muitas vezes tornando o atendimento mais caro e inadequado para aquela assistência. Realmente o sistema precisa se reestruturar”, acrescenta o professor.
Ele destaca ainda que este padrão social exigirá novos objetivos dos profissionais da Medicina. “Como mudo atitudes comportamentais de pessoas que nunca fizeram exercício? Que nunca tiveram uma alimentação saudável? E como tento convencê-las de tomar medicamento pelo resto da vida – um tratamento crônico, não por sete dias como ocorria tempos atrás -, além de batalhar pela inclusão social? São os desafios atuais da prática médica.”
Em linhas gerais, o cuidado deve ser pensado de forma interdisciplinar, com uma equipe multiprofissional. Deve unir profissionais da Medicina, Enfermagem, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Assistência Social, Psicologia, Nutrição, Odontologia e Educação Física, entre outros.
CUSTOS PREVIDENCIÁRIOS
“Em 1950, havia dois milhões de pessoas acima de 60 anos. Em 1975, já eram seis milhões, e viramos o século com 14 milhões. Em 2025, a expectativa é que haja 32 milhões desse público. Em 2060, a projeção é que haja mais idosos do que crianças, uma situação difícil de ser administrada sob o ponto de vista da previdência e de benefícios sociais, porque teremos muito menos adultos em fase produtiva”, alerta o especialista.
O envelhecimento populacional, segundo Luiz Roberto Ramos, é a raiz da questão previdenciária, com a entrada menor de jovens em fase economicamente produtiva e o aumento grande de pessoas que vão viver um período cada vez maior de aposentadoria. “Isso resulta em uma equação que não fecha, porque os indivíduos podem se aposentar relativamente cedo e vão ficar por mais anos recebendo os benefícios.”
O artigo Envelhecimento da população e a Previdência Social: as possibilidades existentes de aposentarias no Brasil e suas regras - de Leandro dos Santos Bernardes, Jacir Leonir Casa Grande e Adriana Bainha – aponta que entre 2001 e 2011 houve um aumento importante de 71% de homens e 10,6% de mulheres beneficiários da previdência. E no meio rural, 65,4% de homens e 26,83% de mulheres.
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