ÚLTIMAS NOTÍCIAS

11/08/2020 - Fake News atrapalham esforços dos médicos

Tomar chá de alho serve como tratamento para o coronavírus. Ingerir água a cada 15 minutos faz com que o vírus vá direto para o estômago, onde é morto pelo suco gástrico. O coronavírus tem tamanho maior do que o comum, assim, o uso de qualquer tipo de máscara impede a contaminação. Em um ambiente com temperatura maior do que 26º, o vírus não se prolifera. Comer alimentos com pH alto é uma forma de se prevenir da Covid-19. Um banho de sol é o bastante para eliminar a chance da doença. 

O que todas essas afirmações têm em comum? Um olhar mais atento já o terá percebido: nenhuma delas é verdadeira. Esses são apenas alguns dos exemplos identificados em mensagens de redes sociais, como Facebook e WhatsApp, blogues e sites suspensos nos últimos meses. A elas, somam-se outras dezenas de recomendações e orientações sem nenhum embasamento científico, sugerindo possibilidades ainda mais danonas aos cidadãos, como o uso de substâncias ilegais, para prevenção e tratamento da Covid-19. 

Falar sobre a proliferação de fake news - anglicismo para notícias falsas - já não é novidade em junho de 2020, mas a pandemia deste novo coronavírus aumentou a produção de desinformação no ambiente digital. Não à toa, autoridades de Saúd, no Brasil e no Mundo, além de atuarem no combate à Covid-19, têm se dedicado a desmentir informações incorretas em seus canais oficiais. 

Além das campanhas informativas, instituições públicas, do Legislativo ao Judiciário, se debruçam também sobre o tema. As fake news são tema de inquérito do Supremo Tribunal Federal, que analisa como as campanhas eleitorais foram influenciaas pela propagação de desinformação. No Senado Federal, uma lei (não votada até o fechamento desta edição) buscava estabelecer parâmetros para dificultar a criação de contas falsas nas redes sociais. 

São ações que vão ao encontro dos ensejos da população brasileira. Pesquisa divulgada em 2 de junho, realizada pelo Ibope a pedido da organização não governamental Avaaz, mostrou que 90% da população defende que haja uma lei para obrigar empresas de redes sociais a protegerem a sociedade das notícias falsas e da desinformação. 

ENTIDADES TAMBÉM PADECEM

É possível dizer que as fake news são duplamente prejudiciais aos médicos, seja na assistência ou quando se tornam prática corriqueira em disputas para diretorias entidades de classe, ocupando o espaço que deveria ser reservado ao debate plural de ideias e propostas. 

Mais ua vez, não se trata de novidade. Ainda em 2018, o tema foi assunto na Revista da APM. Na oportunidade, a Associação Paulista de Medicina sofria ataques de grupos inescrupulosos, que inclusive foram alvos de investigação por parte das autoridades. 

Voltando um pouco no tempo: à época da criação do programa Mais Médicos, a resistência e a luta da classe nasceu dento da APM. Inclusive, o estacionamento onde hoje temos o edifícios Dr. Florisval Meinão foi ponto de encontro para diversas passeatas históricas de protesto, como aquela que colocou mais de 10 mil médicos na Avenida Paulista manifestando-se contrariamente. 

Mesmo assim, pessoas inescrupulosas, a cada processo de renovação de Diretoria da Associação, ignoram os fatos e os registros históricos, plantando fake news de que teríamos apoiado a medida. 

Ano sai, ano entra, e pessoas que praticam esse tipo de crime seguem em liberdade e atuantes, lamentavelmente. Em junho passado, a APM se viu obrigada a prestar solidariedade a César Eduardo Fernandes, ex-presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp) e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Profissional, de carreira ilibiada, ele tornou-se alvo de campanha difamatória nas redes sociais, com acusações gaves e absolutamente mentirosas, ao constituir, com outras lideranças de especialidades médicas, o Movimento Nova AMB, que defende a correção de rumos da Associação Médica Brasileira (AMB), para que realmente esteja ao lado dos médicos em lutas por remuneração justa, condições adequadas ao exercício da Medicina, etc. 

Fernandes acredita que a propagação de notícias falsas não é uma atividade inocente, mas sim que quem as produz tem mando, orientação e centralização. "As fake news são absolutamente condenáveis. Está ocorrendo muito na política partidária e na guerra ideológica e, la - mentavelmente, estão as trazendo para dentro do movimento médico”, analisa – confira entrevista com ele na pág. 30.

Infelizmente, o ginecologista não foi o primeiro. Em 2017, na época da última eleição à AMB, a sanha da desinforma - ção voltou-se a Jurandir Marcondes Ribas Filho. “Recebi muitos ataques, inclusive da imprensa. Processei um jornal que plantou notícias falsas e uma montagem em que eu aparecia com um ex-presidente da República – que, diga-se de passagem, eu jamais conheci, vi ou estive próximo. Também surgiram montagens com ex-ministros da Saúde muito criticados pelos médicos na época. Ações que pregavam mentiras.”

Akira Ishida, vice-presidente da APM, foi outro alvo das fake news no último ano, quando pretendia ocupar uma cadeira no Conselho Federal de Medicina. Conforme relata, a sua defesa na época – que segue atual – da necessidade de uma regulamentação da Telemedicina, após amplo debate com a classe, fez com que grupos o rotulassem como ‘telegesso’ (Ishida é ortopedista), como se o médico defendesse que fossem liberadas todas as ferramentas sem segurança, justamente o contrário do que ele acredita.

Além disso, houve postagens pesadas nas redes sociais, questionando a minha integridade, duvidando do meu caráter, me taxando de desonesto. Na época, denunciou à Comissão Eleitoral do CFM, mas como eventualmente tiraram as publicações do ar, ficou por isso mesmo”, adiciona o vice-presidente da APM.

Clóvis Francisco Constantino, diretor de Previdência e Mutualismo da APM, passou por experiência semelhante quando fez parte de uma das chapas que se candidataram ao Conselho Regional do Estado de São Paulo (Cremesp), há dois anos. “Todo o grupo sofreu com isso. As fake news são postagens falsas e agressivas, com conotação de calúnia e agressão pessoal, transcendendo as eleições. Abala passar por isso no momento.”

Em seu entendimento, a prática é um prejuízo grande ao movimento médico, que nas últimas duas décadas e meia sempre caminhou em unidade, não só no estado de São Paulo, mas em todo o território nacional. “De repente, com o advento das redes sociais, ambiente que não requer comunicação formal e estabelecida legalmente, as pessoas passaram a se valer de mensagens imediatas”, analisa.

A avaliação é parecida com a de Roberto Lotfi Jr., também vicepresidente da Associação: “Quem inventa fake news tem pouco cérebro. A política associativa – e mesmo a partidária – deve ser discutida por ideias, buscando o convencimento. Quem usa agressividade pessoal contra os concorrentes, tratando como inimigos, banaliza e empobrece o movimento médico. Fazer críticas é absolutamente razoável, mas demanda inteligência suficiente para analisar e discutir. Inventar mentiras é desprezar a inteligência alheia”. 

Lotfi Jr. também foi alvo de difamações em 2018, quando candidato a uma das cadeiras do Cremesp. “Tento me colocar acima dessas discussões, buscando ignorar. Mas isso nos agride no aspecto pessoal, magoa pessoas, e assim me senti na ocasião. Política médica só tem um sentido: melhorar a situação do profissional de Medicina. Fake news magoam e agridem familiares, filhos, netos, esposa. É uma agressão que não leva em conta a privacidade e a vida pessoal dos indivíduos.