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27/10/2019 - Fundador da ANM é destaque em I Encontro das Academias de Medicina de SP e do RS

A Lição de Anatomia do Dr. Tulp – quadro de Rembrandt, Medicina na Guerra de Troia e História da Patologia também foram temas abordados

 

“José Martins da Cruz Jobim foi um desbravador, protagonista e fundador da Academia Nacional de Medicina, em uma época na qual o Brasil tinha uma herança cultural muito pobre, infelizmente. No período colonial, entre os séculos 16 e 17, os cirurgiões e boticários diplomados eram minoria de uma grande comunidade terapêutica. E o reconhecimento aos poucos dos médicos diplomados era incipiente.”

Com essa introdução, o acadêmico Carlos Alberto Mascia Gottschall palestrou sobre José Martins da Cruz Jobim, precursor da Academia Nacional de Medicina, no I Encontro das Academias de Medicina de São Paulo e do Rio Grande do Sul, realizado em 26 de outubro, na sede da Associação Paulista de Medicina.

Jobim nasceu em 1802, em Rio Pardo, Rio Grande do Sul. Em 1828, formou-se em Medicina em Paris. Com foco em Saúde Pública e extensão social da área médica, defendeu a tese de doutoramento sobre “Vaccine”. Em 24 de abril de 1830, realizou a primeira reunião pública na Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, mais tarde ANM.

“Ele já falava de diferenciação da Medicina e orientava os médicos segundo os campos de atuação, ou seja, antecipando as especialidades. Clamava pelo cumprimento ao Código de Ética Médica e respeito entre médicos e cirurgiões”, relata Gottschall.

Preocupava-se ainda com as condições precárias de higiene nas ruas não calçadas daquela época. “A água suja misturava-se com restos de animais e comidas, ambiente propício para proliferação de doenças. Sugeria medidas saneadoras, como queimas de lixo, limpeza do espaço público, proibição de sepultamentos em igrejas, separação de alienados e tuberculosos em atendimentos, antes mesmo de conhecer o contágio da tuberculose, e higiene nas prisões”, pontua o pesquisador.

Entre 1831 e 1833, a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro publica o “Seminário de Saúde Pública”, que serviu como originário dos anuários posteriores da ANM. Em 1832, Jobim defendeu o ensino e a legalização da Medicina, sugerindo que os diplomas médicos fossem expedidos apenas pela escola médica cirúrgica.

Inaugurou a Neuropsiquiatria no País e fundou a disciplina de Medicina Legal. “Suas ideias influenciaram o Senado a redigir um Código Penal Brasileiro, processo que envolvia um médico especialista em Medicina Legal para assessorar a Justiça, pois os resultados até então realizados eram caóticos”, explica o acadêmico.

O fundador da ANM também foi diretor do Hospício e da Faculdade de Medicina Dom Pedro II, entre 1842 e 1852, além de reconhecer três importantes doenças tropicais do período: tuberculose, malária e hipohemia.

Arte e Guerra de Tróia
“Não era só a missão em si que estava em jogo na Medicina do século 17, mas a representação da prática através de famosos pintores”, destaca a acadêmica Maria Helena Itaqui Lopes, em conferência Medicina e Arte: uma dissecção da lição de Anatomia. Para tanto, ela abordou a relação entre Rembrandt Harmenszoon van Rijn, considerado um dos maiores nomes da história da arte europeia, e o médico Nicolaes Tulp com estudantes, registrado em quadro pelo artista holandês.

Rembrandt produziu 300 pinturas, 300 gravuras e 2 mil desenhos. “Ele se diferenciava de outros pintores porque captava a emoção das pessoas. Por isso, era notado como um grande artista. E foi o motivo de o anatomista ter o escolhido para retratar sua aula”, explica a acadêmica.

Além do chapéu, Tulp se distingue dos outros médicos pela gola retangular e plana – e não redonda bufante – e também pelos punhos brancos. Enquanto ministra sua aula, o cirurgião-professor não dirige o olhar ao cadáver, mas aos seus formandos, como que a perscrutar reações de assentimento ou contrariedade.

“É um legado para a Medicina ao mostrar a vida e a morte do conhecimento, sendo passado para outras pessoas e outras gerações, e a leitura subliminar do quadro - uma das exaltações ditas pelos anatomistas da época - é ‘conhece-te a ti mesmo’, levando-se ao entendimento e aproximação com o Criador”, conclui a pesquisadora.

O acadêmico Paulo Roberto Prates retratou a Guerra de Tróia, conflito bélico entre aqueus - um dos povos gregos que habitavam a Grécia Antiga - e os troianos - habitantes de uma região da atual Turquia, que durou aproximadamente 10 anos, entre 1.300 e 1.200 a.C.

“Muitos aspectos entre a Mitologia e a História ainda não foram identificados e se confundem. Hoje, é aceito que o conflito realmente aconteceu”, informa o pesquisador.

Homero descreve com detalhes a guerra, apesar de não ter sido testemunha dos fatos, pois viveu quatro séculos depois. “O poeta menciona cerca de 130 diferentes ferimentos, a maioria descrita com grande precisão anatômica”, disse Prates.

Patologia
As conferências da manhã foram encerradas com a palestra História da Patologia, ministrada pelo acadêmico Carlos Alberto Basílio de Oliveira, da ANM, ao rememorar as descobertas importantes e figuras notáveis da área.

“As diferentes ciências, como a Anatomia, a Física, a Química, a Bacteriologia e a Fisiologia, facilitaram o desenvolvimento da Patologia no mundo. O surgimento do microscópio, os avanços bacteriológicos e a descoberta dos raios-x formaram forte sustentação para a definitiva implantação do conhecimento patológico”, ressalta Oliveira.

No Brasil, o papel das Instituições de pesquisa e assistenciais foram primordiais para o avanço do estudo, com destaque para a Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, berço da atual Academia Nacional de Medicina, o Instituto Oswaldo Cruz (Instituto de Manguinhos), o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, o Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro e o Instituto Nacional de Câncer.

Com a fundação da Sociedade Brasileira de Patologia, em 1954, na cidade de Curitiba (PR), ampliou-se os departamentos universitários de Patologia, com a criação de cursos de pós-graduação, congressos nacionais da especialidade, intercâmbios com as universidades estrangeiras e participação em agências de fomento à pesquisa.

“O patologista fez compreender que não há só doenças, mas sobretudo doentes, e que o enfermo não é apenas um caso, mas também uma vida. Com o ocorrer dos anos, percebemos que só não vale lutar, mas sim aprender a criar estratégias ao longo da vida”, conclui o acadêmico.

 

Texto: Keli Rocha
Fotos: Marina Bustos

 

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