Lesões graves na pele podem interromper tratamento contra câncer
24/07/2017 - Lesões graves na pele podem interromper tratamento contra câncer
Ana Teles, 45, sofreu reação alérgica, com lesões e feridas no corpo. Marina Medeiros, 67, perdeu cabelo e teve descamação da unha e da pele. Carla Anselmi, 41, sofreu queimaduras da radioterapia na região genital. Maria Paulino, 74, apresentou pele seca e as unhas roxas.
Todas enfrentam ou enfrentaram o câncer, passaram por quimioterapia e/ou radioterapia e sofreram os efeitos colaterais desses tratamentos na pele, mucosas e unhas.
Embora à primeira vista possam parecer um mal menor quando comparados ao potencial benéfico das terapias oncológicas, esses problemas trazem muito sofrimento ao doente e, em casos de reações severas, podem adiar ou até interromper o tratamento do câncer.
A boa notícia é que hoje é possível prevenir e tratar esses efeitos antes que eles comecem a incapacitar a vida do paciente. Para isso, porém, é preciso que oncologistas e dermatologistas trabalhem juntos.
É o que acontece em um ambulatório voltado à reabilitação dermatológica de pacientes com câncer na Faculdade de Medicina do ABC, em Santo André, que atende pacientes do SUS e foi o pioneiro no gênero no país.
Na semana passada, o ambulatório lançou cartilha e plataforma on-line, com acesso gratuito, na qual é possível buscar orientações e dados sobre o tema (www.suportedermatologico.com.br).
Segundo a dermatologista Dolores Gonzalez Fabra, responsável pelo ambulatório, a ideia de montar um serviço dermatológico aliado à oncologia surgiu há 13 anos, quando uma paciente a procurou pedindo ajuda para lidar com os efeitos da quimioterapia.
“Ela tinha herpes, micos, queda de cabelo e de sobrancelhas e várias infecções. Na época, nenhum médico quis tratá-la por estar me tratamento oncológico. Diziam que era preciso termina-lo primeiro para começar a tratar as lesões dermatológicas”, diz Dolores.
Em comum acordo com o chefe da oncologia, Auro Del Giglio, a paciente foi medicada e logo melhorou. “Não só do corpo, mas da alma, resgatou a autoestima”, diz.
A partir daí, as duas especialidades passaram a atuar juntas no ambulatório e na produção de pesquisas sobre o tema. Uma delas, por exemplo, mostrou que o tratamento dermatológico diminuiu em 82% o grau de sofrimento das pacientes com câncer.
A partir de 2010, com o surgimento das terapias-alvo, novas drogas que estimulam o sistema imunológico para que o organismo tente destruir o tumor, as reações dermatológicas se tornaram ainda mais intensas.
Sentindo na pele
“O órgão mais atacado é a pele. Com essas terapias, começaram a aparecer reações muito graves. O mesmo paciente pode ter diferentes reações, a mesma droga pode causar diferentes lesões”, afirma Dolores.
Segundo oncologista Daniel Cubero, professor assistente da Faculdade de Medicina do ABC, às vezes é preciso parar o tratamento oncológico ou recorrer a terapias mais antigas que causam menos reações mas oferecem sobrevida menor.
“Começamos a vivenciar onde os efeitos colaterais na pele eram proibitivos para a sequência de um tratamento oncológico importante para o paciente.”
A auxiliar de escritório Ana Teles quase passou por isso. Em janeiro deste ano, ela teve alergia severa na primeira sessão de químio para tratar um câncer de mama e os médicos cogitaram interromper o tratamento. Com a intervenção de Dolores, em 20 dias as reações alérgicas estavam sob controle.
Entre as lesões estão acne severa, rachaduras e feridas nas mãos e nos pés, descolamento das unhas e inflamações na mucosa. “É muito dolorido. A pessoa não consegue comer”, diz a médica.
Segundo Dolores, é possível minimizar os efeitos da radiação com uso de cremes específicos prescritos pelos médicos e seguindo orientações, como evitar sabonetes em barra e loções com álcool, para não piorar o quadro.
Daniel Cubero lembra que cuidar dos efeitos na pele melhora a autoestima e bem-estar. “As pacientes sentem dor por fora e por dentro.”
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