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30/08/2017 - Medicina do Adolescente - Desafios no período de transformações

TAMBÉM CONHECIDA COMO HEBIATRIA, A ESPECIALIZAÇÃO SURGIU NO BRASIL NA DÉCADA DE 1970

A Hebiatria, ou Medicina do Adolescente, é a área de atuação que trata do desenvolvimento físico e das alterações hormonais durante a adolescência, fase de mudanças que requer muita atenção e cuidado.

Quem observou isso foi o norte-americano James Roswell Gallagher, criador do primeiro programa voltado para esse campo nos Estados Unidos, em 1951. No Brasil, as primeiras propostas de serviços surgiram no início da década de 1970 nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, em virtude de trabalhos pioneiros realizados pelas Faculdades de Medicina.

O dia a dia do médico hebiatra baseia-se na assistência, didática e pesquisa. O profissional pode atuar em ambulatórios de centros universitários, escolas, programas ligados ao SUS, consultórios particulares etc. Além de cuidar do crescimento, o foco é também contribuir na formação de cidadãos. Isso por que o especialista atua sobre o crescimento e desenvolvimento físico, em toda sua gama de normalidade e anormalidade (baixa estatura, aspectos nutricionais, puberdade precoce, atrasada etc.); acompanhando a imunização e a proteção contra as várias formas de violência; realizando a prevenção da contracepção, prescrevendo os métodos disponíveis e próprios à faixa etária; lidando com a sexualidade, problemas nutricionais como obesidade e transtornos alimentares a exemplo da anorexia e bulimia, problemas de escolaridade etc.; além das doenças infecciosas. Seria a clínica geral do adolescente.

Maria Sylvia de Souza Vitalle, presidente do departamento de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), chefe e professora adjunta do Setor de Medicina do Adolescente da EPM/Unifesp, explica os atendimentos: “As consultas são diferenciadas e os diagnósticos melhor elaborados, uma vez que incluem os aspectos biológicos, sociais e culturais. Abordamos vários assuntos, como projetos de vida, amizades, formação etc. Outra questão é respeitar as particularidades de cada adolescente ao falar, porque eles precisam ganhar confiança e, para isso, necessitam de espaço adequado. Um ambiente calmo, mas que não remeta ao universo infantil, pois não gostam de serem confundidos com crianças”.

Para Tamara Beres Lederer Goldberg, membro do Departamento de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e professora da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), a falta de profissionais específicos para acompanhar o adolescente é uma das dificuldades encontradas nesta área, além do baixo retorno financeiro das consultas.

“Nós somos poucos, por volta de 290 médicos com título na área de atuação. Todos os residentes com formação em Pediatria poderiam estar capacitados para atender o adolescente. Entretanto, vários serviços não possuem equipes para treiná-los, de forma a oferecer um aprofundamento nas diversas áreas necessárias à sua formação e atuação, que engloba aspectos biopsicossociais”, esclarece Tamara.

Carlos Alberto Landi, vice-presidente do departamento de Adolescência da SPSP, acredita que o Brasil ainda tem muito a evoluir em comparação com outros países da América Latina, principalmente por causa da escassez de serviços e profissionais especializados. “Apesar de a população adolescente estar em plena ascensão, ainda falta conscientização quanto à importância do acompanhamento médico regular para essa faixa etária. Nos grandes centros, nós podemos encontrar serviços de referência ligados às Universidades, mas ainda são poucos”, diz.

Para se tornar um médico hebiatra, o profissional deve ter especialização em Pediatria e residência médica em Medicina do Adolescente, credenciadas pela Associação Médica Brasileira (AMB). Para obter o título na área de atuação, é necessário fazer prova durante o Congresso Brasileiro de Adolescência, realizado a cada dois anos.

“Acima de tudo, acredito que é preciso ter uma base humanística, um olhar amplo para esse ‘ser’ em transformação, sua família e sociedade na qual ele se insere. E para os problemas que permeiam essa trajetória de busca de identidade, de reconhecimento. A pessoa necessita estar em sintonia com as mudanças e os paradigmas, deve se dedicar e se preocupar com o outro”, finaliza Landi.

Matéria publicada na Revista da APM - edição 681 - agosto 2017