ÚLTIMAS
19/12/2017 - O Casamento da Ciência e da Arte
Medicina e Literatura mantêm desde sempre uma inter-relação que ajuda a curar o corpo e a alma
Em uma breve análise, Literatura e Medicina são ofícios de mundos diferentes, separados pela distância existente entre as ciências humanas e as biológicas. Mas, se nos detivermos em um olhar mais profundo, podemos nos surpreender com a relação próxima que os dois campos constituem, desde os tempos mais primórdios.
Segundo confidencia o médico e escritor Manoel Odir Rocha – em artigo publicado pela Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames) –, o maior expoente da Medicina na Literatura, Moacyr Scliar, dizia: “Literatura e Medicina lidam com a palavra. No caso da Medicina, a palavra é um instrumento terapêutico, e no caso da Literatura, um instrumento de criação estética.
Mas interessantes paralelos podem ser estabelecidos entre diferentes usos da palavra. A inter-relação entre elas é um dos aspectos principais das chamadas Humanidades Médicas, que vêm sendo introduzidas nos currículos de várias escolas médicas”.
Conforme nos explica Helio Begliomini, médico, escritor e membro da Sobrames e da Academia Brasileira de Médicos Escritores (Abrames), hoje há grupos instituídos nas graduações. A Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo, por exemplo mantém um grupo de leitura em seu primeiro ano de formação, bem como a Universidade de São Paulo. “Esse movimento está crescendo, recentemente inclusive houve um simpósio justamente para avaliar essa simbiose”, relata.
A familiaridade com a profissão, somada à convivência com a Literatura, permite ao médico conhecer melhor o seu paciente, segundo avaliação de Odir Rocha. O tocantinense, autor de obras como “Do amor à Terra” e “Auscultando a Vida”, afirma em seu artigo: “Hábitos de ler e escrever ajudam a organizar as ideias e propiciam ao profissional da Medicina melhor comunicação com o seu doente, com a sua família e com os colegas. Comunicar-se bem é requisito fundamental para o médico. Essa relação ajuda o profissional a reconhecer a dimensão humana, tornando-o mais eficiente e qualificado para exercer a Medicina de forma plena”.
RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE
São diversos os exemplos de livros que descrevem e relatam episódios envolvendo doenças, tratamentos e a relação entre médico e paciente. Mais especificamente, destacam-se: “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann; “A Tenda dos Milagres”, de Jorge Amado; “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstoi; e “O Alienista”, de Machado de Assis. Mário Barreto Corrêa Lima, membro da Academia Nacional de Medicina do Brasil, apresentou no “Simpósio Humanidades na Saúde: A Relação Médico- Paciente” algumas reflexões sobre essas obras. No caso do livro de Tolstoi, por exemplo, Lima afirmou tratar-se de uma novela que tem por tema principal a experiência de adoecer e morrer, a partir da perspectiva do enfermo, deixando o leitor na pele do paciente.
“Isso é fundamentalmente importante para entender a questão do adoecer e morrer. Quando experimentamos o lugar do doente, da perda de sua integridade, autonomia, trabalho e lazer, entendemos a dor emocional. A obra permite refletir sobre o cuidado [humano] que devemos ter – uma coisa simples, mas esquecida e ofuscada pelos avanços científicos. A tecnologia e a prática médica não são mutuamente excludentes, uma deve ajudar a outra”, afirma.
Outra obra abordada por ele foi “O Doente Imaginário”, peça de teatro escrita por Molière, em que é retratada a história de um velho hipocondríaco que aceita todas as ordens de seu médico. O profissional, entretanto, se junta a um auxiliar do protagonista para se aproveitar disso e recomendar tratamentos onerosos em benefício próprio. “O médico coloca seu interesse particular emfoco e satisfaz seu egocentrismo. Molière critica a maneira de fazer Medicina e a falta de ética e de humanismo deste médico, se valendo da comédia para tal. Ele também fez outros trabalhos que apresentam o mesmo tipo de reflexão. Era um grande crítico da mercantilização da Medicina”, analisa.
O acadêmico também abordou a descrição que Drauzio Varella faz de seus sentimentos – no livro “O Médico Doente” –, retomando o diálogo do profissional que o tratou da febre amarela. Varella revelou que na voz de seu médico havia um misto de lamento pela gravidade do diagnóstico com uma ponta de orgulho por ter chegado a ele. “Em geral, o conhecimento do mal que alguém apresenta tem um efeito tranquilizador, o que não foi o caso por tratar-se da temível febre amarela, que evoluiria para a cura ou para o óbito”, completa Corrêa Lima.
“Quero crer que, para os pacientes, seja natural a aceitação de uma boa leitura, que o ajude a se recuperar. Como acontece com as canções, na musicoterapia, que os deixam tranquilos. Ou com os palhaços, outra arte que os anima tanto.
Houve, no passado, a grande psiquiatra brasileira Nise de Silveira, que abordava os enfermos com a pintura de quadros. Isso resultou no Museu de Imagens do Inconsciente para expor os trabalhos. Acredito que a leitura também possa funcionar nesse sentido”, diz Begliomini.
O MÉDICO ESCRITOR
Além dos já mencionados Drauzio Varella, Moacyr Scliar, Helio Begliomini e Odir Rocha, o Brasil teve ou tem outras dezenas de autores médicos. Alguns deles são João Guimarães Rosa, Juscelino Kubitschek, Eurico Branco, Ciro Martins, Thereza Freire, Ivo Pitanguy, Hélio Moreira e Daniel Emídio, entre muitos outros. Em nível global, destacam-se Nicolau Copérnico, Arthur Conan Doyle, Alexandre Dumas e Fernando Namora, além de Hipócrates, a quem é atribuída a paternidade da Medicina.
“Esse profissional tem fontes de inspiração que não são encontradas em outras carreiras. O médico convive com doenças, seres humanos, alegrias, tristezas, desespero; com os limites da vida, desde o extremo do nascimento até o da morte. Isso aguça a sensibilidade, sobretudo daqueles que já têm, de berço, uma valorização do ser humano. Daqueles que pretendem atenuar o sofrimento das pessoas”, argumenta Hélio Begliomini. De qualquer forma, ele acredita que colocar no papel e escrever vai da aptidão de cada um. “A Literatura, como qualquer arte, ajuda o trabalho do médico. Normalmente, quem faz o curso de Medicina está aberto às expressões artísticas. Não é incomum vermos médicos músicos, pintores, cantores etc. Não me dediquei a escrever para ser melhor médico, mas foi algo que aconteceu”, finaliza.
Matéria publicada na Revista da APM - edição 695 - dezembro 2017
Educação Médica
Valorização de Honorários
Financiamento da saúde
Carreira de Estado
Redução de impostos
Pesquisas Datafolha