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07/10/2018 - Operação Benim
Alexandre Kazantzi e Julieta Sato já tinham ido algumas vezes em missões humanitárias no Benim – país da África Ocidental, que faz fronteira com a Nigéria e o Togo -, com equipes do Hospital Santa Marcelina, mas se inquietaram há alguns anos: resolveram, com o intuito de ampliar o atendimento aos locais, montar um grupo novo. Em 2016, então, juntaram-se a outros colegas e, com 14 voluntários ao todo, criaram o grupo Missão Brasil-Benin.
De lá para cá, as coisas evoluíram. Em 2018, a segunda edição da excursão médica levou 19 missionários, que estiveram por 21 dias atendendo e realizando cirurgias na população da Vila Zinviè, na cidade Cotonou, centro econômico do país. “Desde a primeira vez, juntamos pessoas que trabalharam em conjunto. Tudo o que fizemos para a missão crescer foi um trabalho de todos. E o crescimento está sendo vertiginoso”, afirma Kazantzi, que é cirurgião torácico e pediátrico.
As especialidades dos participantes, inclusive, ditam em certa medida o trabalho do time: o foco é cirúrgico. Ao abrir esse novo ramo na missão do Santa Marcelina, reuniram-se cirurgiões, anestesistas e outros especialistas. Um destes é Paulo Cesarini, endocrinologista e clínico geral. A princípio, soube da missão por Rodrigo Oliveira, cirurgião de cabeça e pescoço, que também faz parte da equipe.
“Somos amigos há muitos anos e ele veio me perguntar se eu tinha interesse em fazer parte, já que domino o francês. Seria interessante para ajudar na comunicação. Pude ir nesta edição de 2018 e, embora não seja cirurgião, consegui contribuir.
A minha atuação, como clínico, foi mais no sentido de realizar a triagem e executar, junto dos colegas, algumas avaliações pré-operatórias”, relata Cesarini.
A MISSÃO
A estruturação da viagem é feita a partir do contato dos médicos do Brasil com os do Benim. Os detalhes da organização e as datas são definidas de acordo com a demanda local. E tudo em conjunto com a equipe do hospital que recebe os brasileiros. “Atuamos no La Croix, que é um hospital privado de padres. É importante dizer que não há Medicina pública no Benim. É a nossa resposta, inclusive, quando perguntam por que não vamos ao Nordeste em vez da África, por exemplo”, argumenta o cirurgião torácico e pediátrico.
O acesso é, então, a quem tem dinheiro. Felizmente, conta a anestesista e missionária Julieta Sato, o grupo consegue levar dinheiro para arcar com os atendimentos no hospital. “Nós divulgamos que há um grupo de brasileiros para realizar atendimento médico ‘gratuito’. Com a ajuda do padre local, sabemos quem pode pagar pela cirurgia, quem pode contribuir com algum valor ou quem realmente não pode dar nada. Assim, fazemos com que nenhuma cirurgia seja suspensa por falta de recursos.”
O financiamento é completamente voluntário, já que o grupo tira do próprio bolso e ainda exercita a imaginação e a criatividade para buscar fontes de renda para custear a missão. “Aprendemos que conseguimos muito com tantos ajudando um pouco. Fizemos um show da banda do Rodrigo Oliveira para reverter verbas. A minha filha é professora de dança e também fez uma aula para recolher doações. Vamos juntando fundos assim”, explica Kazantzi.
No país africano, a rotina dos médicos é a de uma equipe cirúrgica como outra qualquer. Ficam alojados em um anexo construído pelos padres dentro da área do próprio hospital. Acordam cedo, vão à unidade, fazem os atendimentos e as operações durante todo o dia e retornam ao alojamento. Quanto à estrutura, Julieta compara com a de uma cidade do interior do Brasil. “Há o atendimento local, são realizadas pequenas cirurgias, mas não há UTI ou banco de sangue, por exemplo.” Como anestesista, inclusive, ela aponta grande dificuldade com o material usado no local. “Nos hospitais brasileiros, há materiais, drogas e remédios modernos, para dormir, acordar, controlar arritmias cardíacas etc. Lá, utilizamos remédios muito antigos. Tivemos que estudar como era o cenário do anestesista há 20, 30 anos.”
“No Benim, afastados de nossas rotinas e de reclamações, muitas vezes pequenas, entramos em um processo muito focado no trabalho. Tudo rendia, apesar das dificuldades e de limitações de infraestrutura. Por conta da falta de uma UTI, por exemplo, os cirurgiões e anestesistas têm de assumir um risco maior na indicação cirúrgica, com uma margem de segurança mais restrita. Isso torna o trabalho ainda mais importante, fazendo o máximo com poucos recursos, sem gordura para queimar”, completa o clínico geral.
BENIM
O país, que tem 10 milhões de habitantes, é um dos piores colocados no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): 167o (de 188 nações), com um conceito de 0,487. Como é uma ex-colônia da França, o idioma oficial é o francês, mas parte considerável da população fala fon, dialeto de alguns países africanos.
Reside justamente na linguagem uma das grandes dificuldades dos médicos da Missão Brasil-Benin. “É o nosso principal problema. Tem muita gente que não fala o francês, apenas o fon. Outros que possuem um francês muito ruim. Então, por vezes, o paciente fala com o enfermeiro em fon, daí o enfermeiro fala em francês para um dos nossos intérpretes, que nos passa em português. Ou seja, há uma barreira na comunicação. Aos poucos, por outro lado, isso tende a melhorar. Eu mesmo falo um pouco mais de francês, e outras pessoas também estão evoluindo”, pontua Alexandre Kazantzi.
Paulo Cesarini, que foi convidado justamente pela fluência em francês, reitera a barreira: “Foi uma vivência muito diferente, até porque eu não tinha experiencia de tradução. Tive de perguntar muito para funcionários do hospital, enfermeiros, médicos etc. De maneira geral, entretanto, com a boa vontade de toda a equipe, logramos sucesso. Isso mostra que mesmo sem muitos recursos, quando estamos mobilizados, nos entendemos apesar das culturas e línguas diferentes”.
“Acredito que a missão teve um impacto positivo para os moradores da Vila Zinviè. Possibilitamos um pouco de atendimento a eles. Em que pese alguns aspectos culturais, no geral conseguimos fazer algo que ultrapassasse as barreiras culturais e linguísticas. Quando você mostra algum grau de interesse pelo outro, é um diferencial. Nos momentos de pós-operatório e de atendimentos, a atenção que dávamos era muitas vezes mais importante que as medicações”, acrescenta Cesarini.
Além dos benefícios intangíveis, as cirurgias realizadas dão lucro para o hospital e, portanto, revertem algum investimento na comunidade. Como é uma unidade privada, todas as consultas e cirurgias são pagas pela equipe – integral ou parcialmente. “Nesse sentido, também pretendemos ajudar mais nas próximas vezes, colocando para funcionar alguns equipamentos de primeira linha que eles têm por lá, mas não usam por não saberem muito bem. São instrumentos doados do Canadá”, adianta Julieta Sato.
ALTRUÍSMO
Se há alguns poucos casos que não podem ser resolvidos (por falta de recursos materiais), multiplicam-se as histórias de sucesso que tanto gratificam os médicos da missão. Alexandre Kazantzi conta, por exemplo, o caso de uma criança que nasceu – enquanto estavam lá – com um atrésia intestinal. Ele informou para uma das freiras que era necessário operar, após realizar o raio-x. “Aqui ninguém faz esse procedimento”, foi a resposta. Diante da possibilidade de perder a criança, não havia outra solução. “Mesmo com uma anestesia precária, fizemos a cirurgia de correção. Até hoje essa criança está muito bem”, detalha.
Ele também relembra de uma criança que nasceu com um tumor embaixo da língua. Apesar de benigno, impossibilitava o bebê de mamar. O jejum já durava cerca de três semanas, antes dele e de Rodrigo Oliveira a operarem. Posteriormente, enviaram aos médicos alguns vídeos dela mamando e muito bem.
“A missão fez com que eu sentisse algo que busco desde o primeiro dia da faculdade de Medicina, desde menino inclusive. Imaginar que existem crianças que foram operadas por mim e que não fosse por isso, poderiam não ter realizado esses procedimentos. Que nós, da missão, mudamos as vidas delas, salvamos algumas, é muito impactante. No próximo ano, vou ao Benim pela oitava vez, então você pode imaginar”, diz Kazantzi.
Cesarini define a experiencia como transformadora. “É um impacto muito grande observar a capacidade de resiliência daquelas pessoas, vivendo com tão pouco. É um aprendizado. Para nós, do grupo, também foi forte a percepção do quanto conseguimos trabalhar, mesmo com poucos recursos, quando estamos imbuídos de um ideal. Creio que todos tenhamos saído muito fortalecidos emocional e espiritualmente desta experiência. Percebemos que temos capacidade muito maior do que imaginamos.”
Julieta adianta que a próxima missão deve ocorrer no primeiro semestre de 2019, em mês a ser definido de acordo com a demanda local. “Ainda estamos vendo com os médicos e padres. Esperamos ficar por lá quatro ou cinco semanas. Vamos crescendo aos poucos. É legal vermos que inspiramos outras pessoas e fazemos a diferença na vida de alguém. Quando ajudamos alguém, estamos ajudando a nós mesmos.”
Relativamente nova, a Missão Brasil- Benin está se estruturando. A pessoa jurídica da entidade foi estabelecida, permitindo que em futuro próximo mais doações sejam recebidas. O objetivo, conforme contaram os membros, é crescer – tanto no Benim quanto eventualmente em cidades brasileiras em que consigam estabelecer projetos de auxílio. E reforçam os entrevistados: querem que as pessoas vejam esse trabalho e pensem “Puxa, são pessoas normais que se juntaram e fizeram. Eu também posso fazer”.
Publicado na Revista da APM - edição 703 - setembro 2018
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