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14/06/2020 - Por dentro dos hospitais de campanha
A fim de dar suporte ao sistema de saúde e receber pacientes com Covid-19, o estado de São Paulo já estruturou 33 hospitais de campanha, em 20 cidades, para auxiliar no combate à pandemia que monopoliza a atenção de todo o mun - do – de acordo com dados da Secretaria Estadual da Saúde, atualizados em 19 de maio [confira na tabela abaixo].
“A ideia do hospital transitório é aten - der a uma determinada circunstância emergencial, para dar suporte à estrutu - ra hospitalar já consolidada. Antigamen - te, em confrontos, buscava socorrer os feridos. Atualmente, enfrentamos uma
crise sanitária em praticamente todos os países do mundo”, afirma o assessor médico da Diretoria da Associação Paulista de Medicina, Marcos Eurípedes Pimenta, também presidente do Hospital Mario Gatti.
Os hospitais de campanha têm sua origem em campos de batalha. Mais precisamente no século 18, era Napoleônica, há registros dos primeiros atendimentos de urgência e emergência, conhecidos naquele período como “sistemas de corpos de ambulância”, como descreve estudo produzido por Daniel Coronel, da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp).
“Os soldados feridos em campo de batalha eram transportados em carroças com tração animal, para serem atendidos por médicos, longe dos conflitos”, destaca em História do Atendimento Pré-Hospitalar: Portaria 2048/GM 5 de novembro de 2002. Em 1863, surge a Cruz Vermelha Internacional, com atuação preponderante nas duas grandes guerras mundiais do século 20.
Com o passar dos anos, essa estrutura de saúde temporária passou por transformações significativas para atender a necessidades pontuais. “Hospitais de
campanha, surgidos para cuidar dos feridos em batalha, hoje auxiliam no atendimento de populações que estão expostas a desastres naturais como enchentes, desabamentos, terremotos etc.”, explica a autora Maj Dora Rambauske, no artigo A importância do hospital de campanha para as forças militares.
“As utilizações de hospitais de campanha estão diretamente associadas a períodos de grande acumulação de pessoas e demanda por atendimentos de saúde, muitas vezes acompanhando pestes, epidemias, catástrofes naturais, conflitos sociais e campanhas beligerantes presentes no decorrer da história da humanidade”, define o mestre Romílson Fonseca da Cunha, na dissertação Atenção ao inesperado: um estudo de caso no hospital de campanha da aeronáutica.
FUNCIONAMENTO
Investir em hospitais de campanha é uma recomendação feita pela Organização Mundial de Saúde. No Brasil, o Ministério da Defesa também está disponível para atender as solicitações das unidades, tanto no que diz respeito às implantações como aos atendimentos, de acordo com pronunciamento feito pelo então secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis.
A maioria das estruturas é elaborada em formato de porta referenciada, ou seja, recebe pacientes transferidos de outras instituições hospitalares. “Há uma gama grande de variação, desde hospitais de campanha para baixa complexidade até outros com unidade de terapia intensiva. Isso depende muito do modelo adotado pelo gestor. Há serviços de gestão federal, estadual e municipal, definida a partir do ente que coordena e disponibiliza recursos”, complementa Pimenta.
No dia 7 de maio, o Hospital de Campanha do Estádio do Pacaembu, na Zona Oeste de São Paulo, completou um mês de funcionamento, com mais de 80% dos leitos ocupados por pacientes com o novo coronavírus. Em um espaço para 216 internações, 161 já estavam ocupados. Foi uma das primeiras estruturas erguidas no estado.
Nas outras duas unidades provisórias do Complexo do Anhembi, havia 489 pacientes internados, de um total de 1.870 leitos. Já o Hospital de Campanha do Ibirapuera recebia cerca de 100 doentes, em uma capacidade de 268 internações. Até o dia 10 de maio, a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo já havia registrado 14 mortes ocorridas nessas unidades temporárias.
“Faço gestão hospitalar há mais de 30 anos, e pela primeira vez me deparo com uma situação totalmente atípica, porque sempre tivemos basicamente a assistência ou grande parte da atuação voltada para tipos de patologia. Hoje, os nossos atendimentos são destinados, especificamente, para uma única doença. No entanto, as pessoas continuam tendo cólica renal, apendicite, quebrando braço etc. É um momento muito delicado para dimensionar e mensurar o destino dos recursos de forma adequada”, ressalta o presidente do Mario Gatti.
A Rede Mario Gatti - composta pelos hospitais municipais Dr. Mario Gatti e Ouro Verde, quatro unidades de pronto-atendimento (UPAs) e serviço de atendimento móvel de urgência (SAMU) - reduziu as cirurgias eletivas e as programadas foram postergadas porque hoje os leitos são destinados exclusivamente para os pacientes com o novo coronavírus.
O complexo receberá, ainda em maio, um hospital de campanha no ginásio da sede da instituição de aprendizagem profissional Patrulheiros, em parceria com a ONG Expedicionários da Saúde. A unidade está sendo preparada com um sistema de filtragem de ar específico para não disseminar o vírus e três blocos com 12 leitos cada, totalizando 36 vagas.
“Agora estamos diante da prática, aprendendo o processo, o tempo de duração, a eficiência e as normas específicas e legislativas. Precisamos nos adequar a essas questões para atender, em uma média três a quatros vezes maio, pacientes nessa instalação provisória”, conclui Marcos Pimenta.

Foto: BBustos Fotografia
Matéria publicada na edição 719 da Revista da APM - mai/jun 2020
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