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14/05/2020 - Pós-pandemia: “Temos que tomar cuidado com a ideia de normalidade”
O médico sanitarista e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gonzalo Vecina Neto, recomendou, na última quarta-feira (13), que é necessário termos cuidado com a ideia de que teremos uma situação de normalidade após a pandemia de Covid-19. O especialista aponta que o futuro nos reserva um “outro normal”. Essa avaliação foi feita durante coletiva de imprensa do projeto “Todos pela saúde”, iniciativa patrocinada pelo Itaú que reúne especialistas para auxiliar no combate ao novo coronavírus.
Vecina fez essa declaração logo após estimar que o grupo enxerga a possibilidade de 3,5 ou 4 milhões de pessoas terem tido Covid-19 no País, ainda que o Ministério da Saúde trabalhe com números menores, e lembra que uma pandemia só termina quando acaba também o número de pessoas que ainda podem ter a doença.
Segundo Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein, um dos grandes problemas da situação atual é a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) para as equipes de Saúde, fazendo com que muitos profissionais se afastem por serem contaminados, prejudicando o atendimento da população. “Já há relatos de casos graves e de óbitos entre profissionais da Saúde. É fundamental proteger quem cuida antes de que eles possam cuidar, assim assegurando a saúde de toda a população.”
Outros membros do grupo reforçaram a necessidade de isolamento social. Mauricio Ceschin, ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), reforçou que o uso de máscaras também é fundamental, além do uso constante de álcool em gel e água e sabão com frequência, sobretudo para aqueles que precisam sair de casa. “Medidas como o rodízio de carros pretendem manter o distanciamento social em patamar mais elevado do que era apresentado nos últimos dias.”
O oncologista Dráuzio Varella também reforçou a necessidade do uso de máscaras pela população, mas fez uma ponderação: “A utilização não pode ser aconselhada de forma única na prevenção da doença. Sabemos que o isolamento social reduz o número de pessoas que vão aos hospitais, isso está demonstrado e há uma quantidade enorme de trabalhos publicados. As máscaras são recurso a mais, fundamental, mas sozinhas não evitam a transmissão do vírus. Há a necessidade de se continuar com o isolamento social”.
SUS
Os especialistas também mencionaram a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) no enfrentamento da pandemia. Eugênio Vilaça Mendes, consultor do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), mencionou a dificuldade que há no desenho macroeconômico do sistema, que se expressa no dilema entre segmentação e universalização.
“A pandemia nos fará refletir sobre a necessidade de uma ação muito concreta na comunicação entre sistemas privado e público. No plano da organização microeconômica, temos que criar uma agenda para o SUS a partir de outro dilema: o da fragmentação e integração. Vamos ter que integrar o SUS, fazendo com que ele opere fundamentalmente a partir da construção de redes integradas”, analisou o especialista em planejamento em saúde.
Gonzalo Vecina também fez uma reflexão em que equiparou a necessidade de um sistema de saúde universal e gratuito (financiado por impostos) à necessidade de escolas em uma sociedade. Em seu entendimento, todos os países civilizados no mundo têm que ter um sistema parecido com esse.
“Espero que possamos fazer desse aqui um país civilizado. Existe uma construção que já dura 30 anos e precisamos continuar fazendo, esse é o caminho. Hoje, Europa e Canadá estão se perguntando o que fizeram nos últimos anos, após a crise de 2008, que deixou sistemas de saúde subfinanciados, sendo pegos no contrapé nesta crise. Isso ocorreu no Brasil, nos últimos 15 anos o SUS perdeu financiamento. Temos que reconsiderar e sentir a importância de ter um sistema que ofereça saúde universal à população.”
Todos pela saúde
O Itaú Unibanco destinou, via Fundação Itaú Social, R$ 1 bilhão para a iniciativa. Esse dinheiro é repassado para a realização das iniciativas aprovadas pelo conselho de especialistas supracitados, que reúnem esforços a fim de combater a Covid-19. O grupo se reúne diariamente há um mês, discutindo as melhores formas de colaborar com as autoridades de saúde em termos de compra de equipamentos, gestão, pesquisa, atendimento, entre outras esferas.
As ações são divididas em quatro eixos principais: informar, proteger, cuidar e retomar. Foram várias as iniciativas do grupo, tais como: instalação de gabinetes de crises no Brasil inteiro, em 62 hospitais; compra de R$ 270 milhões em EPIs, R$ 250 milhões em equipamentos médicos e R$ 34 milhões em máscaras para a população; acolhimento de infectados que não podem ficar em isolamento em casa; aplicação de inteligência artificial pra diagnóstico em tomografias; testagem em asilos; doações para pesquisas; recuperação de ventilares e outras.
“O projeto tem uma linha de financiar estudos epidemiológicos para entender como caminha a ocorrência de novos casos e como está a situação imunológica da população naqueles que já tiveram a doença e imaginamos que estejam imunes. Nesse caminho, temos um conjunto de projetos em andamento para auxiliar o Estado a tomar decisões sobre como dirigir a questão do isolamento social”, completou Vecina, que também é professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e já foi secretário municipal da Saúde de São Paulo.
O grupo de especialistas anunciou que, em junho, a iniciativa entregará duas centrais de testagem, a serem administradas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro e
em Fortaleza. “Os dois centros não necessariamente começarão com a capacidade total, tendo previsão de dois momentos: o primeiro, com cinco mil testes ao dia em cada um deles. E depois de uma semana ou 15 dias, ambos em capacidade máxima, com 15 mil testes diários no Rio e 10 mil em Fortaleza”, explicou Pedro Ribeiro Barbosa, pesquisador da Fiocruz.
Ele relembrou que a situação da testagem é mais complexa, porém, do que estabelecer apenas essas centrais. “O ‘Todos pela saúde’ também está apoiando, em parceria com a Accenture e em interação direta com o Ministério da Saúde, o que chamamos de cadeia nacional de testagem. O intuito é promover a adequada coleta na população e a destinação efetiva às centrais, para que tenham de fato importante papel e possam oferecer um aumento tão necessário na capacidade de testagem do Brasil”, acrescentou Barbosa, que também é diretor-presidente do Instituto de Biologia Molecular do Paraná.
Paulo Chapchap, líder do grupo e diretor-geral do Hospital Sírio Libanês, apontou que ambas as estruturas servirão à sociedade mesmo após da pandemia, podendo ser aproveitadas para outras enfermidades. Além deste legado, ele apontou que essa situação deverá alterar a consciência da população. “É fundamental que as pessoas tratem de sua saúde e dos que estão no seu entorno. O comportamento pode afetar de forma impactante nossa saúde e, após a pandemia, nós todos deveremos ter consciência sobre isso.”
O especialista indica outra herança prática que o ‘Todos pela saúde’ deve trazer: “O apoio à governança e à regulação da demanda e a capacidade de resposta com a instalação dos gabinetes de crise na gestão dos hospitais [ação que a iniciativa vem fazendo no último mês], baseada em dados e fluxos. Isso pode trazer benefícios permanentes aos hospitais de referência e à regulação central dos estados”.
“Estou me sentindo privilegiada de acompanhar esse grupo de especialistas. São discussões profundas e desafios grandes. Tenho notado que o principal a ser reforçado são as equipes de hospitais, para que possam fazer input de dados. No banco, não entendemos de Medicina, mas sim de gestão. E sabemos que é impossível fazer gestão sem dados tempestivos e corretos. Com isso, podemos ajudar diversas instâncias de governo a fazer melhor gestão de equipamentos médicos, de pessoal, de leitos etc.”, finalizou Claudia Politanski, vice-presidente do Itaú Unibanco.
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