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22/02/2018 - Quatro a cada dez graduados em Medicina são reprovados na 13ª edição do Exame do Cremesp

O quadro é preocupante: 88% não souberam interpretar o resultado de um exame de mamografia e erraram a conduta terapêutica de uma paciente e 78% erraram o diagnóstico laboratorial de diabetes mellitus

Os resultados do Exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) divulgados na última quinta-feira (22) são aparentemente animadores: na edição aplicada em outubro de 2017, 64,6% dos candidatos foram aprovados – ou seja, acertaram mais de 60% das 120 questões da prova. Em números absolutos, obtiveram resultados positivos 1.702 dos 2.636 egressos inscritos. Não atingiram o mínimo percentual de acerto 934 participantes.

Em contrapartida, a lacuna deixada pelas escolas na formação de um profissional que lida com saúde e vidas humanas é preocupante. Mesmo com o avanço no percentual de aprovados, há muitos egressos que demonstram deficiências básicas para um médico. Alguns não souberam interpretar exames para diagnosticar e administrar a conduta terapêutica adequada a casos simples e problemas de saúde frequentes.

Lembrando que o exame, de acordo com critérios de classificação e análise psicométrica clássica, tem questões em sua maioria de nível médio (51 das perguntas) e fácil (36). Foram, ainda, 11 as questões consideradas muito fáceis, 10 de nível difícil e apenas uma avaliada como muito difícil.

“A experiência tem demonstrado, em todos esses anos, que cerca de metade dos alunos não são aprovados. Apesar da leve melhora nesta edição, esse resultado é trágico, considerando que é uma prova de conhecimentos básicos. Observamos que as pessoas estão muito mal preparadas”, argumenta Renato Azevedo, conselheiro do Cremesp e diretor Social da APM.

De acordo com ele, o ideal era que o exame fosse obrigatório, condicionando o exercício da Medicina à aprovação. “Assim, os egressos reprovados retornariam às escolas – por conta delas – para voltar a estudar para o exame seguinte. É uma questão de defesa da formação médica e, principalmente, da população, que será atendida por esses profissionais.”

Confira exemplos de grandes índices de erros:

-88% não souberam interpretar o resultado de um exame de mamografia e erraram a conduta terapêutica de uma paciente
-78% erraram o diagnóstico laboratorial de diabetes mellitus
-75% não conseguiram identificar conduta para paciente com hemorragia digestiva alta
-74% não souberam responder sobre metabolismo dos carboidratos
-70% não acertaram a nutrição apropriada após quadro agudo de pancreatite
-60% demonstraram pouco conhecimento sobre doenças parasitárias (chagas, leishmaniose, esquistossomose), formas de veiculação e contaminação
-57% erraram a avaliação para paciente com alteração de válvula aórtica sintomática
-54% não conseguiram avaliar o comportamento da frequência cardíaca e da pressão arterial durante a gravidez
-50% não souberam respeitar a autonomia do paciente
-40% não souberam fazer a suspeita de uma apendicite aguda

Avanços a comemorar
A título de comparação, as taxas de aprovação nos exames de 2015 e de 2016 foram de, respectivamente, 51,9% e 43,6%. Das 46 escolas médicas ativas no estado de São Paulo, 32 foram representadas por seus alunos na avaliação. As demais ainda não possuem turmas formadas para que participem das provas, por terem sido abertas há poucos anos.

“A melhora nos resultados, em relação ao ano anterior, foi de 21%. Isso demonstra que o Exame do Cremesp, a cada dia que passa, tem mais aceitação. A proliferação das escolas médicas tem criado um problema na formação e o exame demonstra esse fato. Nós enviamos relatórios de resultados às faculdades, para que avaliem seu desempenho, e aos alunos. Acho que o esforço desses atores, para melhorar a formação médica, é um dos fatores responsáveis pelo crescimento na aprovação”, afirma João Ladislau Rosa, ex-presidente e conselheiro do Cremesp.

Um dos fatores que ajudou o índice de aprovação a crescer foi o desempenho das escolas privadas. Ainda que tenham obtido maior reprovação do que as públicas (como ocorreu em anos anteriores), os egressos aprovados passaram de 33,7% em 2016 para 56,8% nesta edição. O desempenho dos recém-formados de cursos públicos também cresceu de um ano para o outro: de 62,2% para 79,7%.

Essa foi a 13ª edição do Exame do Cremesp, avaliação aplicada pela Fundação Carlos Chagas e composta por 120 questões de múltipla escolha. O exame abrange as seguintes áreas: Clínica Médica, Clínica Cirúrgica, Pediatria, Ginecologia, Obstetrícia, Saúde Pública, Epidemiologia, Saúde Mental, Bioética e Ciências Básicas. As notas são divulgadas individualmente a cada egresso, enquanto as escolas recebem um resultado consolidado do desempenho de seus alunos, preservando suas identidades, com os detalhes, pontos fortes e deficiências.

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