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19/09/2020 - Solidariedade ao povo libanês
Quando ouviu um barulho de explosão, no dia 4 de agosto, Everaldo Cunha - que é diplomata na Embaixada do Brasil no Líbano e vive há três anos em um apartamento a um quilômetro do Porto de Beirute - foi à varanda. Vendo a densa coluna de fumaça que se formava no local, chegou a pensar na possibilidade de um bombardeio. A situação securitária no Líbano é volátil e um ataque desse tipo não o surpreenderia.
Antes que pudesse entender a gravidade do que ocorria, houve uma segunda explosão. “Fui lançado para dentro do meu apartamento e a fachada do prédio, toda em vidro e alumínio, colapsou sobre mim. Fraturei uma costela com o impacto e tive múltiplos cortes pelos estilhaços. Logo que recuperei os sentidos e consegui sair dos escombros, fui em direção ao local mais seguro da cidade para buscar atendimento médico e avaliar melhor a situação”, relata.
As explosões que atingiram o Porto de Beirute deixaram cerca de 200 pessoas mortas e milhares de feridos. E, segundo avaliação do diplomata, ocorreram em um dos piores momentos recentes do país, que enfrenta a maior crise econômica da sua história. “A moeda local se desvalorizou 80% em poucos meses e calcula-se que mais de 50% da população viva abaixo da linha da pobreza. Após a explosão, estimase que mais de 300 mil tenham ficado desabrigados. Além disso, vivem no Líbano aproximadamente 1,5 milhão de refugiados sírios e 500 mil palestinos, que também experimentam condições de alta vulnerabilidade.”
Segundo Cunha, o Líbano, agora, negocia com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para buscar fôlego financeiro. Uma demanda que não será fácil de alcançar, uma vez que os credores exigem, em contrapartida, reformas que representam grandes desafios ao país. “Apesar de todas as dificuldades, o Líbano é muito resiliente e tem um setor privado de altíssimo nível, muito criativo e inovador, baseado em mão de obra altamente qualificada, mesmo para os padrões de países desenvolvidos”, argumenta.
APOIO DOS MÉDICOS
A partir do momento que surgiram notícias dimensionando o tamanho da tragédia libanesa, começaram a nascer campanhas de colaboração para a reconstrução da capital do país. Uma de grande destaque foi empreendida pela Associação Médica Líbano-Brasileira (AMLB) – saiba mais no box da pág. 25. “Foi uma cena chocante de se ver. Sou nascido em Beirute e vivi no Líbano até a adolescência, tenho a cidade na memória. Vivi uma guerra civil no país.
Então, com a explosão, veio muita emoção”, relata o oftalmologista Robert Nemer, presidente da AMLB.
Ver as manifestações de solidariedade e as notas de apoio não foram suficientes para ele, que lançou a campanha da Associação. A iniciativa trouxe mais pessoas interessadas em auxiliar. Segundo Nemer, a resposta foi alta e rápida, com diversas empresas contribuindo com materiais hospitalares e cirúrgicos e diversos depósitos na conta da AMLB. “Logo, o Consulado do Líbano nos apoiou e a campanha se espalhou pelo Brasil inteiro. Outras instituições, como as Câmaras do Comércio Brasil-Líbano e Árabe-Brasileira, bem como o Hospital Sírio-Libanês (HSL) e o Clube Monte Líbano, nos auxiliaram”, lista. O sucesso resultou em toneladas e toneladas de doações.
“Conversando com os libaneses, vi que a necessidade é total. Também aumentou exponencialmente nas últimas semanas a presença de Covid-19. E precisam de ajuda para reconstrução – há pessoas desabrigadas, gente simples que perdeu tudo. Precisam de vidro, aço, comida, remédio etc”, completa Nemer.
Paulo Chapchap, diretor geral do HSL, menciona que a Sociedade Beneficente de Senhoras do Hospital trabalhou muito rapidamente para também prestar auxílio às comunidades afetadas pela explosão, oferecendo apoio logístico para o envio de medicamentos que pudessem oferecer suporte farmacológicos.
MÉDICOS LÍBANO-BRASILEIROS
A presença da comunidade libanesa na Medicina local, como a própria AMLB ou o Hospital Sírio-Libanês refletem, é imensa. Nemer relembra, por exemplo, que quando fez Residência Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 50% de seus professores tinham ascendência do Líbano.
Acerca do HSL, Chapchap relata: “Tudo começou em 1921, com o desejo de um grupo de senhoras em retribuir o acolhimento que as suas famílias receberam ao chegar ao Brasil. Essa pequena semente de solidariedade cresceu e culminou com a fundação da Sociedade Beneficentes de Senhoras Hospital Sírio-Libanês, entidade filantrópica que trabalha diariamente para fomentar a construção de uma sociedade mais justa e fraterna”.
E a história começa ainda no século XIX, com um dos patronos dessa ligação: Nagib Fares Michalany. Como indica o material institucional da AMLB, ele graduou-se em Medicina pela Escola Protestante, atual Universidade Americana de Beirute, tendo chegado ao Brasil em 1884, após passagens pelo exército otomano no Sudão e no Egito.
A seguir, outros grandes médicos seguiram os passos de Michalany, tais quais: Fadlo Haidar, Negib Khalil Scaff, Nicolau Salim Assali, Suleiman Ide Freihah, Chucri Zaidan, Elias Mikail Khair, Wadih Safady e Miguel Gebara.
HISTÓRICO DE IMIGRAÇÃO
Boa parte deste movimento migratório se deve à figura do imperador Dom Pedro II, que em suas viagens nas décadas de 1860 e 1870 visitou o Oriente Médio, conhecendo líderes e intelectuais locais e estimulando a aproximação entre os povos, cimentada ao longo do século XX.
Como publicado no livro “Relações entre o Brasil e o mundo árabe: construção e perspectivas”, um dos diários de viagem de Dom Pedro II – que inclusive estudou árabe e hebraico – dizia: “O Líbano ergueu-se diante de mim, com seus cimos nevados, seu aspecto severo, como convém a essa sentinela da Terra Santa”.
O diplomata Everaldo Cunha reitera essa proximidade. “Desde o final do século XIX, há um fluxo intenso e dinâmico de imigração nos dois sentidos, que perdura até hoje. Estima-se que haja cerca de 10 milhões de descendentes de libaneses no Brasil e, aqui, temos uma comunidade brasileira de cerca de 20 mil pessoas – muitas binacionais.”
Naquela altura, muitos libaneses (e árabes, em geral) começaram a desembarcar no Brasil. Segundo a publicação “Brasil 500 Anos”, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), muitos destes emigraram por motivos religiosos e econômico-sociais ligados à estrutura agrária da região.
No Brasil, a maioria dos imigrantes árabes se dirigiu para São Paulo. Número menor deles foi para o Rio de Janeiro e para Minas Gerais, com alguns poucos se estabelecendo no Rio Grande do Sul e na Bahia. Já em 1920, calculava-se mais de 58 mil imigrantes árabes no Brasil – 40% deles em território paulista.
Essa foi a realidade de Yussef Lutfy, avô de Roberto Lotfi Júnior, vice-presidente da APM. Chegado ao Brasil aos 14 anos, no início do século XX, em decorrência dos processos de dissolução do Império Otomano, ele começou a vida por aqui em Santos, trabalhando como mascate, vendendo gravatas, até juntar dinheiro para vir à capital. Uma vez em São Paulo, Lutfy fundou a Lavanderia Cysne, em Pinheiros, que duraria mais de 80 anos na cidade.
Trajetória comum na comunidade libanesa de forma geral, que foi se estabelecendo nos grandes centros urbanos. Em São Paulo, já na década de 1930, concentravam-se na Sé ou na Santa Ifigênia. Muitos eram mascates e, segundo a publicação do IBGE, foram responsáveis por trazer inovações ao comércio popular, com práticas de alta rotatividade e promoções e liquidações. Com o aumento de capital, os libaneses abriram casas comerciais, sobretudo lojas de tecidos a varejo e armarinhos. Em breve, passariam a investir no setor industrial, galgando forte presença na economia nacional.
Relação tão umbilical é refletida até hoje na diplomacia, na cultura e no comércio. “Fomos o principal fornecedor de carne, tabaco e café ao Líbano em 2019. Na vertente securitária, a Marinha Brasileira comanda, há dez anos, o segmento marítimo da missão da ONU encarregada de garantir a estabilidade na fronteira do Líbano com Israel”, argumenta Cunha.
Acerca da tragédia, Lotfi lamenta que tenha acontecido em um momento de crise financeira e política muito grave no Líbano, relembrando que o país, desde o fim do século XIX, tem passado por diversos momentos de instabilidade, como guerras civis e ocupações estrangeiras. Ele recorre, porém, ao poeta libanês Khalil Gibran para fazer uma previsão: “Não importa quantas vezes o Líbano cairá. O que importa é que todas as vezes o Líbano se levantará e continuará andando para o futuro”, finaliza.
AMLB
Em 1997, médicos de ascendência libanesa formaram o Grupo Hakim, inspirados nos valores morais e éticos tanto de suas culturas milenares, quanto da profissão que abraçaram. “A ideia era trocar ideias na área científica, com reuniões mensais”, relembra Nemer. Ao longo dos anos, o grupo cresceu e os integrantes fundaram, em 2005, a Associação Médica Líbano-Brasileira.
Além de compartilhar conhecimento entre eles, a partir de 2017, os associados trabalho mais voltado ao lado social, agregando pessoas envolvidas com trabalho filantrópico. Desta maneira, iniciaram um projeto de atendimento aos indivíduos refugiados no Brasil. E a Associação está criando regionais no Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul – além do capítulo paranaense já estabelecido.
Nemer afirma que a campanha de doação ao Líbano irá continuar o tempo que for preciso para seguir ajudando no socorro e na reconstrução de Beirute, além de assistir às famílias desabrigadas e auxiliar na reconstrução de hospitais danificados na cidade. Os dados bancários para quem pretende contribuir estão abaixo. Mais informações podem ser encontradas em www. aml-b.org.
ASSOCIAÇÃO MÉDICA LIBANO BRASILEIRA
CNPJ: 08.326.792/ 0001-09
BANCO: SANTANDER
AG: 1199
CC: 13000982-5
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