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10/03/2020 - Verticalização se estabelece no interior de São Paulo

Processo em que operadoras atuam sobretudo com rede própria é nacional, mas tem se espalhado cada vez mais pelo estado

Nos últimos anos, além dos problemas corriqueiros na saúde suplementar, como glosas e interferências, os médicos têm sofrido com uma nova adversidade: a verticalização. A operação, realizada por alguns planos de saúde, descredencia clínicas, hospitais, médicos e outros prestadores. Assim, essas empresas passam a atender por meio de suas redes próprias. 

Ou - em um sistema denominado verticalização "virtual" - as companhias buscam parcerias para atendimento com empresas populares e, dessa maneira, oferecem planos de saúde a preços mais baixos. Essa modalidade envolve o processo de capitation, em que a operadora paga um valor fixo ao serviço, que atende todos os pacientes que surgirem, sem levar em consideração as condições e/ou quantidade. 

Os empresários do setor buscam, com essas movimentações, maior controle - seja de verbas, de pacientes, de recursos humanos e técnicos. Alguns apresentam planos que têm ações de prevenção e saúde básica com o intuito de evitar complicações futuras e, consequentemente, gastos fora do previsto. Apesar de ser um fenômeno de alcance nacional, a verticalização tem ganhado força no interior do estado de São Paulo. A Associação Paulista de Medicina, que tem forte capilaridade e atuação em defesa profissional, identificou nos últimos anos, por exemplo, problemas em cidades como Pirassununga, Araraquara, São Carlos e outras. 

IMPACTOS

Ruy Charles Cardoso de Souza, presidente da Associação Paulista de Medicina - Pirassununga, aponta que os médicos de sua região têm sofrido diversas consequências, sendo a principal o descredenciamento de profissionais. "Há grupos que estão verticalizando todo o sistema de Medicina deles. Inclusive entramos com ações e fizemos denúncias à Agência Nacional de Saúde Suplementar". 

As ações tratam também da falta de reajustes anuais com essas operadoras. "Os convênios da região simplesmente se recusam a sentar para discutir, gerando grande dificuldade. Nós tentamos convidá-los para negociar, mas não conseguimos êxito", relata Souza. 

De acordo com ele, as operadoras têm construído ambulatórios próprios. Segundo apontamento do presidente da APM Pirassununga, com a entrada de novos grupos, mais de 50% dos médicos da região foram descredenciados, dando lugar a recém-formados que ocupam suas posições. 

"Além disso, estamos tendo dificuldades no atendimento. Muitas vezes solicitamos exames simples e eles exigem justificativas por escrito duas ou três vezes. As empresas estão dificultando ao máximo para segurar custos. Isso é muito ruim para o médico e para o paciente", completa. 

Luís Eduardo Andreossi, diretor da 12ª Distrital da APM - que engloba as Regionais de Araraquara, São Carlos e Taquaritinga - também relata desafios. "Esse problema é pertinente em todos os locais. Estamos vendo muitos grupos de Medicina que visam somente o lucro entrarem na nossa região com bastante força. Hoje, eles competem com as cooperativas médicas."

O médico entende que a ANS também tem resposabilidade nessa questão, por não enxergar diferença entre essas operadoras e cooperativas, por exemplo. "Assim, ela determina normas que fazem todos parecerem iguais. Então, até mesmo uma cooperativa tem que atuar como se fosse uma operadora de plano de saúde, dificultando o relacionamento com o médico". 

No entendimento de Andreossi, quando os médicos decidiam como seria o funcionamento do sistema de atendimento, os resultados eram melhores. "A gente tinha uma visão mais profunda sobre a Medicina. A verticalização torna o custo operacional mais barato, mas a meu ver acaba prejudicano o médico, e se interfere em seu trabalho, tem potencial para também prejudicar o paciente. O problema, entretanto, tem origem na ANS", adiciona. 

ATUAÇÃO DA APM 

A diretoria de Defesa Profissional da Associação tem, há anos, lutado por condições dignas de trabalho para o médico na saúde suplementar. Desta maneira, os diretores da área, Marun David Cury e João Sobreira de Moura Neto, capitaneiam um trabalho contínuo de apoio às Regionais e de negociações constantes com as operadoras em nível estadual.

A entidade mantém junto das Regionais, inclusive, a Comissão Estadual de Negociação, que também conta com apoio da Academia de Medicina de São Paulo e das sociedades de especialidades paulistas e brasileiras com sede em São Paulo. O grupo anualmente estabelece uma pauta com reivindicações de reajustes para pleitar junto às empresas, além de enfatizar a importância do diálogo em questões como formas de pagamento, contratualização e modelos de organização, como a verticalização. 

Sobre este tópico, Marun Cury aponta que o processo resulta em uma redução significativa do mercado de trabalho dos médicos. "São várias operadoras verticalizando. O profissional tem que estar atento para procurar alternativas e nós, enquanto Associação, podemos apenas orientar e explicar essas mudanças para os médicos", explica. 

Um problema significativo é a retirada da livre escolha do paciente que, ao adquirir um plano verticalizado, estará restrito aos profissionais contratados por aquela empresa. Dessa forma, o que pode ser bom para as operadoras, não necessariamente é aos cidadãos. 

Como aponta Sobreira, é muito importante garantir que a verticalização não resulte em planos de saúde com redes próprias que tenham atendimento limitado, sem pensar no cuidado completo do paciente. Ele ainda destaca ser necessário ficar vigilante quanto à forma de contratação dos médicos nessas operadoras verticalizadas, evitando a precarização do trabalho. 

"O lucro - que toda empresa espera - muitas vezes é conquistado em prejuízo do trabalho médico. O importante é entender os processos e buscar negociar com as operadoras, sem aceitar imposições, procurando o que é melhor para pacientes e profissionais", finaliza.

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