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14/06/2020 - Você pensa que é impossível, até vir a realidade
Quando começou a sentir fraqueza, cansaço, dor de cabeça e sonolência, a médica Lays de Cassia Florêncio Costa achou estranho, mas se negou a acreditar na possibilidade de estar infectada pelo novo coronavírus. A falta de febre, sintoma preconizado por todos os protocolos de identificação da Co - vid-19, lhe fez imaginar que pudesse ter uma amigdalite ou sinusite.
Com o aumento do cansaço, procurou um hospital e fez alguns exames. A possibilidade de H1N1 foi descartada na hora, aumentando a angústia. Com os sintomas de Covid-19, Lays foi afastada do trabalho. Quando fez o exame – por conta própria – teve a confirmação de que fora infectada: “Você pensa que é impossível, até vir a realidade.”
Lays trabalha na Unidade Básica de Saúde (UBS) 1 o de Outubro, serviço administrado pelo Hospital Santa Marcelina em Guaianases, distrito da extrema Zona Leste de São Paulo. Conforme descreve a médica, a percepção é de que a pandemia se expandiu do centro da cidade, atingindo fortemente, no início de maio, as periferias.
“Infelizmente, neste momento, vemos poucas pessoas com máscaras e muitas nas ruas. É como se as pessoas não acreditassem, são realidades diferentes”, relata.
Quando o Brasil começou a lidar com os primeiros casos de Covid-19, a equipe da UBS 1o de Outubro se organizou prevendo que fosse chegar à periferia. A médica foi alocada no grupo de profissionais que lidariam com os pacientes com sintomas respiratórios.
Naquele momento, cada dia ainda trazia uma orientação nova sobre como lidar com o vírus. “Em vários pacientes que eu atendia, via chances de ser coronavírus, mas não tínhamos o teste. Eram pessoas que trabalhavam com alguém que voltou de fora do Brasil, normalmente. Ou quem trabalhava em hospitais do centro.”
Após alguns dias de atendimento, Lays começou a sentir os sintomas descritos no início deste texto. Com a confirmação, a profissional foi afastada e manteve-se em repouso, isolada em um quarto. “Os primeiros sete dias foram de muita dor de cabeça e garganta. Depois, o quadro evoluiu para dor no corpo e diarreia.”
Com o aumento incessante do número de casos e óbitos, o medo de a sua situação se agravar, ela lembra, era constante. “Após os 14 dias de afastamento, ainda não estava 100%. Voltei a trabalhar com sintomas como falta de ar e fraqueza. Tentava subir um andar de escada e sentia muita falta de ar. Em mais alguns dias, tornei a piorar. Finalmente tive febre, mal estar. Mais de um mês depois melhorei e estou bem, sem sintomas, e novamente na linha de frente do combate à pandemia”, resume Lays.
OUTROS CASOS
Raul Cutait, médico que ocupa a cadeira 23 da Academia Nacional de Medicina, está entre os profissionais infectados pela Covid-19, tendo inclusive necessitado de cuidados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por 20 dias. Em depoimento ao jornal Folha de S. Paulo, o cirurgião gástrico deu declaração próxima à de Lays: “Nunca achamos que vai acontecer alguma coisa mais dramática com a gente. Eu não imaginava [que poderia ser infectado].”
Sem saber como e onde pegou, Cutait também refletiu: “Por que a manifestação foi tão brava comigo, e não com outros? E por que com alguns é muito mais brava? Eu não tinha nada importante [enfermidades anteriores]. Só um pouco de sobrepeso. Meu coraçãozinho estava em ordem. Apesar da idade [70 anos], corro, ando, me exercito”.
Tratado com antibiótico, Cutait ficou uma semana intubado em UTI, teve uma melhora, saiu e depois de outra semana teve que retornar à Unidade de Terapia Intensiva. Curado, o médico comemorou: “Não tenho uma lembran - ça ruim incrustada em mim. Nenhuma. Acho que é alegria de estar bem. É como se fosse um pedágio, e está pago. Acho que até que fiquei mais alegre”.
O cardiologista Roberto Kalil Filho foi outro renomado médico a ter Covid-19. Ele relatou, também à Folha de S. Paulo, que estava atendendo normalmente, até acordar com um mal-estar “que nunca sentiu na vida, febre, dor no corpo e sem energia”.
“Quando fiz a tomografia, foi uma tragédia. Eles me internaram em um segundo. Fui para um quarto e colhi um monte de exames. Aí veio a notí - cia de que eu deveria ir para a unidade semi-intensiva porque os exames estavam péssimos”, contou.
Kalil afirma que o deram de tudo: de cara, tomou cloroquina, antibió - tico e corticoide na veia e anticoa - gulante por conta de um dos fatores no sangue de mau prognóstico em relação à trombose, além do oxigênio. Ele relata que se assustou quando o chefe da semi-intensiva falou sobre a possibilidade de ir à UTI. “Às 4h da manhã, ele passou de novo no quarto e disse que as medicações estavam fazendo efeito e que a oxigenação tinha melhorado. Escapei da UTI e de intubar”, disse o médico ao jornal.
SITUAÇÃO ATUAL
A situação, porém, segue crítica para o sistema público de saúde. Lays Costa afirma que muitos profissionais de Saúde da UBS em que trabalha ainda estão afastados por suspeita ou confirmação de Covid-19. Pelo menos outros quatro médicos também foram infectados em sua Unidade, que possui testes apenas para casos com febre e outros sintomas gripais. “Assim como eu, muitos não se adequam a esses quesitos.”
Em relação aos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), a médica descreve que a UBS está abastecida. Quando eles faltam, porém, a equipe referencia os pacientes a outros serviços, impossibilitando o atendimento sem a segurança necessária. “Se eu já tomava cuidados antes, agora os dupliquei. Não dá para ter segurança de que estou imune, mas não tenho medo de voltar a trabalhar”, finaliza.
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